Close

26 de setembro de 2018

Contos Mínimos # 961 a 970

961.

Deus é onipresente, onisciente e onipotente. É todo-poderoso, quer dizer, pode fazer o que quiser, o que tiver vontade. Agora mesmo, por exemplo, ele decidiu deixar de existir. Mas não só de agora em diante, também de agora para trás. Pra resumir: a sua será uma inexistência com caráter retroativo. Até aqui, nada a objetar. O problema é que Ele se esqueceu de comunicar sua decisão às religiões. A todas.

962.

A jovem e linda repórter viajou a Jerusalém a serviço de um canal de televisão. Diante da câmera, em plena Via Dolorosa, compartilhou com o mundo inteiro sua profunda emoção por estar em local sagrado. Em reportagem ao vivo, contendo as lágrimas, admitiu que não conseguia acreditar que estava pisando o mesmo chão que Mel Gibson tinha pisado.

963.

O líder da seita fundamentalista, na última reunião, tinha finalmente revelado a Profecia Maior: o mundo iria se acabar no fim de semana, ou seja, hoje. Horrorizados pela iminente hecatombe, todos os membros seguiram as recomendações do Chefe Supremo e transferiram seus bens para uma conta corrente nas Bahamas. Em seguida levaram a termo a determinação final: o suicídio coletivo. O líder, isto é, eu, não estava equivocado: o fim do mundo chegou. Ao menos para eles.

964.

A guerra mundial, nuclear, destruiu toda vida humana no planeta. Só um habitante do edifício mais alto de São Paulo sobreviveu. Macário era seu nome. Depois de comer e beber tudo o que havia na geladeira, ler todos os livros de sua biblioteca, passear por seu museu imaginário e ouvir sua vasta discoteca, desesperou-se por não morrer como os outros. Num gesto extremado, atirou-se ao vazio do 32º andar. No momento em que passava pelo 3º andar ouviu soar um telefone.

965.

Despertou, como todos os dias, cansado e com o corpo moído. Sentia-se como se um trem tivesse passado por cima dele. Abriu um olho e não viu nada. Abriu o outro e viu os trilhos.

966.

O palhaço começou a chorar. Não conseguia fazer com que aquela menina desse uma só risada. Ele era especialista em arrancar gargalhadas das crianças, mas com ela tinha falhado. Nem seus balões em forma de bichinhos, nem suas caretas sob a maquiagem ou suas cambalhotas logravam fazer a menina sorrir. E então, quando ela viu as lágrimas escorrendo pelo rosto pintado de vermelho, esboçou um sorriso. Ela era especialista em fazer chorar os palhaços.

967.

Às escondidas, depois de matar a mulher, Antonio Fraga deixou a casa. Ninguém conhece seus motivos, ninguém sabe que esteve ali, ninguém nunca suspeitará dele. Ninguém. Até que se lembrou da frase “não existe crime perfeito”. Sobressaltado, Antonio Fraga sacou seu revólver e apontou para o leitor.

968.

Se você encontrar uma baleia triste, aproxime-se dela com confiança, conte-lhe uma linda história de amor ao ouvido, acaricie suas costas. Ao perceber que ela começa a bater o rabo com força, tranquilize-se: você acaba de salvar uma baleia e isso é uma obra do bem. A tristeza de uma baleia é, como todos sabem, uma tristeza imensa.

969.

Hoje ela voltou a me ligar, no mesmo horário, como tem feito nos últimos quatro ou cinco meses, justo antes de começar o telejornal diário. Falou sem parar, como se a boca não pudesse conter o jorro das palavras. Me contou que cortou o cabelo, que choveu a tarde toda, que descobriu um restaurante maravilhoso e que o supermercado do bairro estava fazendo promoção. Eu fico em silêncio, acariciado pela cadência de sua voz. De repente se despediu, dizendo que deixou comida no fogo. Eu não me atrevi a dizer que ela se equivocou de número.

970.

Todos riram dele na escola. Com desprezo, chamavam-no de bicho raro, esquisito, monstro, aleijado. Ele tinha seis dedos numa das mãos. Sua tristeza, maior que carregar um defeito físico, era constatar que os insultos vinham de seus colegas de classe, os meninos e as meninas que tinham um olho só.

 




Tags:

26 de setembro de 2018 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/mbaggio/" title="Visualizar todas as postagens por Mario baggio" rel="author">Mario baggio Contos Minímos contos mínimos

               
              
            
                

Deixe um comentário