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15 de outubro de 2018

Contos Mínimos # 971 a 980

971.

Anos viajando na mesma linha do metrô, à mesma hora, rodeado pelas iguais caras de sono. Abro o jornal no celular, suspiro. Vejo a pessoa ao lado me repetir, ouço seu suspiro. Tiro os olhos da tela e sorrio. Justo nesse momento, o senhor da frente repete idêntico gesto, idêntico suspiro, idêntico tirar os olhos da tela. E em seguida, como se tivessem combinado, fazem o mesmo o estudante, o advogado, o corretor, a enfermeira, o adolescente, a diarista. O vagão inteiro está cheio de gente entediada com a tela do celular, que suspira, solta o ar, geme, bufa. Quando o metrô chega à estação seguinte, estamos todos quase sem ar, mas, como nunca antes, felizes.

972.

O menino põe a mão no peito, quer ter certeza de que seu coraçãozinho ainda bate. Fica muito tempo sem se mexer, o fotógrafo pede paciência, já vai terminar o retrato da família. O pai sussurra “quieto, menino”. A mãe suspira “minha filhinha”. Cinco, dez minutos, e estão todos ali, na foto que mostra o que não é nem poderia ser mais. Todos: o papai, a mamãe, o menino e sua irmãzinha, sentados em volta da mesa como se fossem jantar. Ninguém mexe nos talheres, a boca fechada. Nenhum deles sorri. E a menina olha para o buraco azul da câmera como os olhos muito abertos, como se estivesse viva.

973.

Beijei a Bela Adormecida e ela acordou. Que sorte! De agora em diante vamos viver felizes para sempre. O problema foi entrarmos num acordo: será o “para sempre” dela ou o meu?

974.

Fazia vinte dias que estávamos perdidos no meio do oceano. Uma manhã acordei com o grito do meu pai: Chegamos! Chegamos! Todos nos apressamos a sair do barco e pisar o cais onde uma porção de gente nos esperava. Já em terra firme, nos abraçamos, apertamos mãos, alguns choravam. Minutos após percebi que nunca tinha visto aquelas pessoas. Elas também nunca tinham nos visto na vida.

975.

— Por que estão atrás de você?

— Por uma coisa que aconteceu há anos. Um assalto. Morreu uma pessoa.

— E querem prender você?

— Pior. Querem me ver debaixo da terra.

— Nossa, que tragédia! Quem você matou?

— Eu não matei ninguém.

— Mas então por que…

— Naquele assalto o morto fui eu.

976.

É irônico, a esta altura, ser aquele que fecha a porta. Aquele que apaga a luz. Aquele que escuta o som dos próprios passos e não o dos passos de outra pessoa. É curioso parar debaixo da chuva enquanto se observa a noite dormindo. Os amantes somente se encontram quando se sonham. A realidade tem algo de ponte incompleta, que não chega ao outro lado.

977.

E nada mais existiu depois do último trem. A via férrea ficou sozinha, sem estremecer ao sentir a chegada da locomotiva, carregada de mercadoria e de passageiros falantes. Não houve mais locomotiva. Durante anos, décadas e séculos as folhas balançadas pelo vento roçaram a alma dos trilhos. O granizo despertou seus sentidos, fazendo-lhe cócegas. As chuvas de verão refrescaram o calor escaldante dos dormentes. As ervas, as plantas e as flores que rodeavam a estrutura de metal agora acompanham os dias vazios e silenciosos da ferrovia, ainda que nos trilhos ressoem, para quem tiver ouvidos, as recordações das vidas que por ali passaram.

978.

— Olhe, não sei por que você insiste nessa atitude infantil. Não é normal esse silêncio, esse desejo de ficar à margem de tudo, alheio a tudo. Você passou quarenta anos me dizendo o que eu devia fazer e pensar. Me anulou, me humilhou, me reduziu, me postou num canto, e agora fica calado, deixando o tempo me aborrecer e me exasperar? Diga logo: te enterro ou te incinero?

979.

Foi atrás dela, até alcançá-la. Ela apertou o passo, ele também. Ficou ao lado dela. Ele tinha certeza, poderia até jurar que, quando cruzaram os olhares, três esquinas atrás, os olhos dela diziam algo mais. Algo como “venha atrás de mim, violente-me, mate-me…  eu te imploro!”

980.

Desde que se conheceram, sua vida girou em torno da dele. Sempre o quis, talvez demais, e em nenhum momento pediu algo em troca. Resignada, amou e não fez questão de ser amada. Um dia ele pediu a separação, sem que algum motivo houvesse. Ela, que nunca lhe negou nada, concedeu. Buscou um advogado. Sua vida continua girando em torno da dele, agora com um objetivo bem determinado: arruiná-la.

 




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