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19 de novembro de 2018

Contos Mínimos # 981 a 990

981.

“Aos Soldados Desconhecidos” — informa solene a placa dourada do monumento. Na parede ao redor, centenas de nomes masculinos estão escritos toscamente, arranhados pelas unhas ensanguentadas de esposas, mães, filhas, namoradas. Elas, sim, os conheciam à perfeição.

982.

Fico em pé no alto da colina, com os braços muito abertos e os olhos cravados na linha do horizonte. Não penso em nada a não ser neles. Depois, muito docemente e a voz em sussurro, chamo por seu nome. Eles começam a aparecer, os personagens.

983.

O herói dorme. Um lençol branco tem a missão de cobrir seu legendário corpo. Ele gira para um lado, logo para outro. Ressona. Vira de bruços e suas nádegas ficam a descoberto. Se encolhe, estica as pernas, se encolhe de novo. Põe o polegar direito na boca. Chupa e se aquieta. Geme um pouquinho. De repente se vê que a cama está molhada. O herói sonha. Em todo homem há uma criança, supõe-se.

984.

Durante séculos a chuva, o vento e as ondas trabalharam na erosão de toda a cidade, reduzindo-a a não mais que areia quente, até que chegou o dia em que seus habitantes se descubriram desamparados e sós no meio de um deserto recém-inaugurado. Foram capturados de surpresa, talvez mais miragens que propriamente pessoas.

985.

Talvez tenha passado muito tempo sem que rissem juntos, sem que se olhassem nos olhos, sem que se tocassem. Talvez agora seja tarde demais. O certo é que hoje, por casualidade, seus olhos se encontraram num canto da casa e, enquanto seus corpos se esquivavam, eles compreenderam que já não valia a pena perder tempo derrubando o muro que tinha surgido entre eles.

986.

Tia Hilda foi acometida por uma estranha loucura: ela acredita ser uma maçã e quer porque quer ser pintada por Cézanne. Imagina estar num prato junto com outras frutas, exibindo sua pele vermelha e brilhante e causando inveja aos pêssegos, às uvas e às laranjas. Passa os dias pendurada numa árvore, à espera de que alguém a colha e a leve ao estúdio do artista. Para ser franco, não sei se ela me preocupa tanto quanto tio Newton, o marido de tia Hilda, que também tem demonstrado não estar muito bem da cabeça. Como a esposa, ele gasta seus dias ao pé da mesma árvore, esperando que sua mulher caia para, enfim, comprovar e publicar sua teoria sobre a Lei da Gravidade Universal.

987.

Ninguém, neste mundo ou em qualquer outro, tem tanto sucesso e fama como O Que Não Está. Ainda que seja jovem, forte e apresente boa disposição (deixou de fumar, bebe um pouco e faz ginástica todos os dias), os muitos anos de prática consciente tornaram-no perfeito na sutilíssima arte da ausência. Os que perguntam por ele nunca conseguem resposta satisfatória e acabam se conformando com um substituto qualquer, mas não o esquecem. O Que Não Está é reverenciado nas conversas dos lares, nos botequins e nas rodas de samba com feijoada aos sábados, recebe com explícita vaidade os boas-noites vindos diretamente da televisão, compadece-se pelos que choram por sua ausência nas esquinas e praças da cidade. O Que Não Está está sempre, ainda que ausente. Os abstinentes d’O Que Não Está acatam o clone com festa no coração, o embalam, distraídos, tratando desde logo de imaginar que abraçam o melhor, o único, O Que Não Está.

988.

Dona Biju quer ir sempre com o mesmo taxista. Tem o telefone dele marcado na agenda do celular, pra não perder tempo quando tem que sair de casa. Muitas vezes, só pelo prazer de vê-lo, liga com a desculpa de que precisa ir ao médico. Ele pergunta, impaciente, a que horas é a consulta, há outros clientes também esperando por ele, precisa cronometrar o tempo pra atender a todos. Ela tem a resposta pronta: À hora que você puder, filho. Você sabe, sempre tenho o dia inteiro pra você.

989.

Impecável em seu costume bem cortado, armado de um smartphone e uma caneta de grife, aquele frio e insaciável homem de negócios não compreende — e nunca compreenderá — que, cheque a cheque, propina a propina, reunião a reunião, ele não faz nada mais que atentar contra o tempo — o único, o insubstituível tempo que lhe foi dado para viver sua vida.

990.

Eu tinha que encontrar a maneira mais rápida de sair do labirinto em vez de caminhar às cegas guiando-me pela textura das estrelas e dos meus dedos. Agora sou apenas um ser que vaga e cumprimenta os que passam por mim; que pergunta como anda a vida lá fora; que não sabe se existe ou é um fantasma que finge existir; que nem sequer espera que o matem nesta monstruosidade que chamam de cotidiano.

 




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