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27 de novembro de 2018

Contos Mínimos # 991 a 1000

991.

Vamos dizer, numa situação hipotética, caso um dia eu precise, você me doaria um rim? Ela tinha feito a mesma pergunta na semana anterior e agora voltava ao assunto enquanto tragava um cigarro na cama, a cabeleira esparramada no travesseiro, o corpo suado do amor recém-feito. Um rim? Como assim, um rim? Só um? Por que não os dois? E por que não o fígado ou o coração?, brincou ele, deitado de costas, morrendo de sono. Ela deu uma cotovelada na costela dele. Vamos, responda. Sim ou não? Ele virou-se e a encarou. Por que essa pergunta de novo? O que foi que eu fiz de errado agora?, ele quis saber, bocejando. Confessa, homem, diga que não me ama e pronto, seria muito melhor, ela apagou o cigarro. Mas é claro que eu te amo, como não te amo? Você está procurando problema onde não tem nenhum, ele ficou de costas para ela. Se me amasse, não me negaria um rim. Um simples rim, não é uma coisa do outro mundo, ela parecia sinceramente irritada. Decidido a encerrar o assunto, ele enfiou os dedos em garra no lado direito de sua própria cintura, tirou de lá um rim e o deu a ela. Toma, pode pegar. É seu. Cuide bem dele. Só me restou um. E agora me deixe ao menos morrer em paz.

992.

Joguei o calendário no fogo. Mas o tempo continuou me consumindo.

993.

Nuvens carregadas e tempestade para o fim de semana: assim anunciou o homem do tempo. Que bonito nome: Homem do Tempo! Como se as frutas, as flores e o resto da humanidade fossem seres intemporais, perenes, imutáveis. Isolamento voluntário, intermináveis horas contemplando como a chuva cai e fumegantes xícaras de chá com biscoito de chocolate: não me ocorre plano melhor para o fim de semana. Às vezes o nada pode ser o tudo.

994.

Historiadores e cientistas colegiados, rigorosamente escolhidos por institutos da maior respeitabilidade, estão sentados em volta de uma mesa e concluem: a primeira grande crise econômica do mundo aconteceu no Egito, em algum ponto entre 1550 e 1500 a.C, sob o nome de As Dez Pragas. Segundo os estudiosos, seu efeito foi amplificado pela falta de cimento e argamassa, que paralisou a construção das pirâmides. Para eles, foi isso que precipitou a situação na qual milhões de pessoas se viram desempregadas de uma hora para outra e completamente desarvoradas nas ruas. Ante a incapacidade de o faraó impor a ordem, não tiveram remédio a não ser errar pelo mundo buscando a sobrevivência. Por sorte havia por lá um líder sindical para organizar o movimento e assim todos seguiram mais ou menos vivos em busca de melhores dias.

As negociações entre o sindicalista e o patrão, no Monte Sinai, demoradas além da conta, resultaram num decálogo de procedimentos cujos efeitos tardaram muito a aparecer e, mesmo assim, de maneira pífia. O povo, unido e indignado, com muita fome e quase nada para comer, a não ser umas pipocas que caíram do céu, acampou no mesmo deserto em que costumava se reunir para celebrar a chegada de cada novo ano. Eles ainda estão lá e esperam, até hoje, a chegada do Ungido que, segundo eles, será o portador da Boa Nova e os guiará por toda a eternidade.

995.

O jantar esfriava na mesa enquanto Sueli trocava os chinelos de ficar em casa pelos sapatos de salto e prendia os cabelos, tudo ao mesmo tempo. O celular tocou. Você de novo? Que saco! O que você quer? Sim, seu filho está bem. Não está em casa agora, não veio jantar. E eu é que sei? Deve estar com os amigos, como vou saber? Ele já tem dezoito anos, não é mais criança. E desligou. Jogou o telefone longe, acompanhado de um Vá à merda para o ex-marido.

Saiu batendo a porta. Descendo as escadas, calculou mentalmente quanto dinheiro tinha na carteira. O filho — igualzinho ao pai, diziam quando ele nasceu, e quanta razão todos tinham! — a esperava, mais uma vez, na delegacia. Melhor que se apressasse, o delegado Alves tem pouca paciência com esses jovens delinquentes que vivem por aí pichando muros, emporcalhando a cidade e fazendo arruaça. E ela não suporta mais pagar fiança toda semana.

996.

É de ser pedra que se trata aqui. Ser pedra para não ser reflexo de nada. Rasgar a água e remover seu grito molhado. Tocar o fundo e não perder a forma. Ser eterna. Ser pedra para poder ser.

A rosa, que em toda a vida foi capaz de beleza e de dor, de perfume e de espinhos, no entanto morrerá sem nunca ter conhecido suas raízes. Por isso não foi. Por isso é efêmera.

997.

Sobre uma folha de lírio selvagem, majestoso e atento ao que se passa em volta, está sentado um monarca verde e úmido, os olhos como as pedras vermelhas de um colar, frias e distantes. Confia nas plantas vizinhas, tão verdes como ele próprio, e nos animais de porte menor que o dele: está em seu reino molhado e ali domina tudo. Habita o lodo e no lodo sente-se à vontade. A lendária sabedoria reside em sua pele áspera e rugosa e em sua boca e língua, que emulam o sorriso desavergonhado de um lunático. Verdadeiramente, este é seu reino e seu reino é deste mundo, de nenhum outro. E não é um reino de ideias, mas de concretude e moscas distraídas. É um rei. Quem se atreve a adorá-lo?

998.

— O senhor deseja um café? — perguntou o garçom.

— Não quero café — respondeu o escritor. Quero música. Quero amor, beleza, ideias, supresas. Quero conhecimento, curiosidade, sabedoria, certezas, dúvidas, improvisação. Quero páginas em branco e mão rápida para preenchê-las. Quero paisagens, horizontes, céu azul, pássaros cantando. Quero flores. E quero tempo.

— Sim, senhor. Trago já o seu café.

999.

Diferente dos aeroportos, as estações de trem não têm controle de segurança. Não há restrição para objetos de metal, os trens não têm câmeras nem fiscais para conferir as passagens, como antigamente.

— Não me diga!, murmurou o terrorista, perplexo.

1000.

Era uma vez um homem que nunca molestou. O mundo jamais soube de sua existência.

 




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27 de novembro de 2018 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/mbaggio/" title="Visualizar todas as postagens por Mario baggio" rel="author">Mario baggio Contos Minímos contos mínimos

               
              
            
                

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