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22 de março de 2020

Conversas

Os nossos diálogos cotidianos — era isso que me dava mais alegria. Conversas quase sem significado, que se tornavam cheias de ternura sem querer, mal dávamos por isso. Ao sair de seus braços, por exemplo, eu dizia Meu amor, eu vou. E ela respondia Meu amor, eu fico. Era assim, por meio de desimportâncias como essas, que eu procurava conhecer seu idioma, descobrir sua sintaxe, apreender sua semântica. Era preciso, e eu queria, ir além do dicionário, buscar e encontrar o que não era dito. Mais que repetir as palavras de sua língua, eu desejava que ela pronunciasse o que eu deveria saber. O som que saía de sua boca se apropriava do meu processo cognitivo e não havia encantamento maior que ser aluno dela, a professora. Descobri que é possível iniciar-se numa nova linguagem graças aos erros que seus falantes cometem na nossa. Igual ao amor: os erros falam de nós mais do que os acertos.

 




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