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25 de fevereiro de 2019

Cortar a própria carne

— Será sem anestesia, disse o médico.

Tinham dito, depois de inúmeros exames, que eu precisava ser operado e eu concordei com a cabeça, sem discutir. Se tinha que ser, que fosse já. Tirei a camisa, deitei-me na maca e ajustei o corpo, ficando com o tronco um pouco mais elevado. O médico abriu sua maleta de ferramentas e selecionou um bisturi. Esterilizou o instrumento. A enfermeira me entregou uma revista ilustrada com fotos dos diversos tipos de incisão possíveis. Passou várias páginas e se deteve numa delas. Apontou uma das ilustrações. É esta, disse ela. O médico esticou os olhos e confirmou. A imagem mostrava um talho horizontal de dez centímetros de largura na altura do pescoço, do lado esquerdo. A legenda da foto informava que a cicatrização daquele tipo de corte era rápida, não mais que poucos dias.

Peguei o bisturi que o médico me entregou. Com a mão esquerda localizei a área de meu pescoço onde a pele deveria ser esticada. Com a direita, sem hesitar, fiz a primeira incisão, não muito profunda, mas dolorosa. O sangue, abundante, cobriu meu peito. A enfermeira se apressou a tapar o corte com gazes diversas e a apertar meu pescoço com firmeza, estancando a hemorragia. Minutos depois a dor e o sangue cederam.

Sentado numa cadeira giratória ao lado da minha cabeceira, o médico balançou a cabeça, desaprovando minha falta de habilidade. Utilize o sentido dos nervos para alongar o corte uma polegada a mais, na direção da nuca, ensinou ele. Haverá bem menos sangue.

A enfermeira trouxe um espelho pequeno para que eu pudesse guiar minha mão na direção correta. Introduzi novamente o bisturi em meu pescoço e prolonguei o talho que tinha feito.

— Isso, muito bem, está certo, aquiesceu o médico. Agora mantenha o corte aberto com os dedos da mão esquerda.

Ele me entregou uma agulha comprida com cerca de vinte centímetros e acendeu uma espécie de maçarico. Pediu que eu encostasse a ponta da agulha na chama e aguardasse dez segundos. Olhei para a enfermeira e ela, de imediato, me mostrou outra foto da revista. A imagem ensinava como fazer. Depois, orientando-me pelo espelho, introduzi a ponta em brasa da agulha no corte recém-aberto em meu pescoço e fucei lá dentro até sentir que toquei um corpo ao mesmo tempo duro e gelatinoso, como se tivesse espetado uma azeitona com um palito. O cheiro de carne queimada inundou o quarto. Tirei lentamente a agulha do interior do corte, trazendo na ponta um objeto ovalado, sanguinolento, como um caroço pequeno de fruta. Era isso que há meses pulsava em minha garganta e estrangulava minhas cordas vocais, fazendo com que minha voz soasse como a de uma cantora lírica desafinada.

A enfermeira colocou aquele algo estranho num vidro cheio de um líquido incolor e o entregou ao médico. Correto, disse ele, olhando o vidro e seu conteúdo contra a luz do teto. Pode fechar, disse à enfermeira. Ela costurou a ferida em meu pescoço com a habilidade de quem já fez isso muitas vezes e finalizou com um curativo, vedando todo o corte. Limpou o sangue seco do meu peito com uma toalha úmida e um pouco de álcool. Voltou a colocar os instrumentos na maleta e deu o trabalho por encerrado.

O médico examinou meu pescoço. Tirou o gorro da cabeça e a máscara da boca e esfregou as mãos no rosto, como se estivesse esgotado depois de cumprir penosa tarefa. Terminamos, suspirou ele. Cumprimentou-me com um tapinha nas costas e apertou minha mão. Notei que em seu pescoço, perto da nuca, no lado esquerdo, havia uma cicatriz esbranquiçada e com aparência de antiga, quase imperceptível.

— Obrigado pela cirurgia, doutor, eu disse, soltando a voz pela primeira vez. Obrigado, enfermeira.

Minha voz soou diferente, mais grave e gutural, exatamente como era antes de tudo acontecer. Peguei o frasco das mãos do médico: o corpinho estranho boiava no líquido e parecia inofensivo, insignificante. O doutor sorriu: Se quiser, pode levar de lembrança. Seu trabalho, seu pagamento. Agradeci mais uma vez e saí.

Já na rua, tirei o vidro do bolso e olhei novamente o caroço contra a luz do sol. Era um quase nada que teve o poder de corromper o funcionamento pleno da máquina quase perfeita que é o corpo humano. Não irei guardar o que não é parte de mim.

Atirei o vidro no lixo e apressei o passo na direção de casa.

 




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