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17 de junho de 2017

Cotidiano da dor

Antes que papai chegue, eu e minha irmã passamos um pouco de ruge naquele rosto pálido e também colorimos de vermelho os lábios murchos. Colocamos a peruca e o colar de pérolas. Quando ele aparece na porta do quarto, diz o quanto ela está bonita e promete, como faz todas as noites, que eles irão para Paris tão logo ela possa se levantar. Ela busca forças para sorrir como fazia antes das dores e dos tubos. Depois minha irmã vai embora com o namorado e papai vai jogar cartas com os amigos do trabalho. Eu fico deitado no sofá ao lado, repassando as anotações para o novo livro, esperando que chegue a acompanhante da noite. De vez em quando olho para a cama, olho para ela sobre a cama. Imóvel, seu olhar está fixo no teto. Será que pensa na viagem a Paris? Vejo como minha mãe é bonita, mesmo com os fios que unem seu corpo a uma máquina que a mantém respirando. Acho que ela sabe que não irá a Paris e está conformada, bonita com seu colar de pérolas. A acompanhante chega, sorridente, e eu me despeço de minha mãe. Amanhã estarei de volta. Amanhã vamos repetir tudo.

 




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17 de junho de 2017 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/mbaggio/" title="Visualizar todas as postagens por Mario baggio" rel="author">Mario baggio Contos amanhã, cotidiano, dor

              
            
  1. Mário, texto curto mas com muito conteúdo. Conteúdo sobre a finitude, sobre o cotidiano que não vemos, sobre as nossas opções, sobre…
    Abraços

    • Obrigado, Silvio, pela visita e comentário. É verdade, o tamanho do texto não representa nada mesmo. E essa finitude que não chega… Abraço, caro.

  2.     
                        
              
            
                

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