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19 de setembro de 2014

Cruel

 

Quando recebeu o recado ele não conseguiu compreender o motivo. Disseram que ela queria vê-lo, insistia em vê-lo. Estavam divorciados há mais de dez anos, e nesse período só tinham se visto duas ou três vezes só para discutir a separação dos bens. Nessas ocasiões tratavam-se como estranhos. Ela era francamente hostil, como se o culpasse pela vida amargurada que levava após o fim do casamento. Para ele as coisas também não tinham sido fáceis: a saída do apartamento, a perda dos amigos comuns, a mudança de emprego. E a solidão. Agora, depois de tantos anos de afastamento, ela queria vê-lo. Ele foi.

Chegou ao hospital no começo da noite. O quarto estava na penumbra e ela, sozinha. O corpo, cheio de fios ligados a aparelhos, denunciava o seu estado terminal.

– Você mandou me chamar, Maria Helena?

Ela virou o rosto lentamente em sua direção. Ele pôde perceber, mesmo na penumbra, os olhos embaçados, que nem de longe lembravam o belo olhar que a ex-esposa tinha outrora. Sua cabeça, quase sem cabelos, tinha uma cor acinzentada. O corpo magro e sem carnes parecia ser incapaz de suportar o peso de uma folha de papel. Era um quadro grotesco, difícil de encarar.

– Queria me ver, Maria Helena?

Ela emitiu um som débil e fixou seus olhos nos dele. Esticou o braço lentamente para alcançar o interruptor e acendeu a luz. Com o quarto todo iluminado, ele pôde ver o indescritível. Mal teve tempo de sair correndo dali, sufocando um grito, quando ela escancarou a boca sem dentes e expôs as gengivas negras numa gargalhada perversa, sem som e repleta de rancor. Na rua, apoiando-se numa parede para suportar a sensação de cair num abismo, ele subitamente compreendeu tudo: ela o chamara para que ele testemunhasse a sua decadência física e guardasse na memória, enquanto vivesse, aquela imagem medonha feita de pus, secreção e toda a crueldade do mundo.




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