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27 de julho de 2020

Cuidadora

E quem da sua família está aqui? Ninguém. Oxe, de onde a senhora vai tirar força sozinha, dona Tininha? Não, fique um pouco quietinha aí, me deixe trabalhar. Deixe que passe o meu braço pelos ossinhos das suas costas. Agora vou puxar um pouquinho para pôr o travesseiro atrás, fica mais confortável. Sim, eu sei, dois travesseiros. Assim, pronto. Banho tomado, corpo limpinho, camisola de algodão, fralda nova, roupa de cama trocada. Agora o creme, não pense que eu me esqueci. Não queremos a pele cheia de escaras, não é mesmo? Isso eu não vou permitir, não se preocupe. Olhe, está vendo? Luvas para não arranhar a pele, esse creme macio e cheiroso. Todo cuidado é sempre pouco. Pele sensível, muito tempo na cama, eu sei bem como é isso. Hoje não posso ficar mais tempo, tenho compromisso em casa. Mas vou deixar tudo prontinho, a sopa, a garrafa de água, e amanhã venho cedinho. Conto mais histórias, conheço umas bem engraçadas. Conto tudo, vou falar também que os dias são compridos, é só o sol despontar que tudo começa. Só acaba com a lua lá no alto. Dias feitos de pedaços, a gente vai vencendo um pedaço de cada vez, entendeu, dona Tininha? É assim que a senhora deve fazer. É assim também em nosso grupo de cuidados a domicílio, e eu gosto muito. Ajudar. Quarentena não é coisa fácil, mas a gente vai sair dessa. Todo mundo vai sair dessa. Vou subir um pouco a persiana, assim a senhora pode ver um pouco de céu, a tarde tá bonita e quente. Não duvide, viu? Isso vai passar. E amanhã eu tô aqui de novo, sem falta.

 




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27 de julho de 2020 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/mbaggio/" title="Visualizar todas as postagens por Mario baggio" rel="author">Mario baggio Contos conto, cuidadora, quarentena

               
              
            
                

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