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13 de abril de 2017

A culpa nunca é nossa

Não estavam cômodos nem se sentiam confortáveis naquele lugar, mas nenhum dos dois tomou a iniciativa de se levantar e sair dali. Olhavam, cheiravam, procuravam com a ponta dos dedos a origem do desconforto, tudo em vão. Não era a temperatura, que estava apropriada, nem a cor das paredes, que era acolhedora, nem as poltronas, que eram adequadas e anatômicas. A razão não era outra senão eles mesmos. Mas isso eles não admitiam, ainda. Sabiam, no fundo, que quem sentia o incômodo eram a temperatura, as paredes e as poltronas — se tivessem vida e pudessem, sairiam dali e deixariam os dois no meio do nada, até que se consumissem no vazio de sua última respiração, como a fruta que apodrece numa fruteira debaixo do sol.

Eram eles que incomodavam tudo ao redor e, embora soubessem disso, fingiam que não. Eles eram observados com desdém e até repugnância pelas poltronas e pelas paredes daquele quarto, pelas praias ensolaradas do Nordeste e pelas ruas geladas de Londres — onde quer que estivessem, incomodariam o entorno. Nas páginas dos livros que milhões de pessoas leem, há duas pessoas que se sentem desconfortáveis dentro de uma casa e não adivinham a origem desse desconforto. Mas a narrativa impressa nas páginas tem que prosseguir, então eles permanecem no desconforto e fingem que procuram a razão que o justifique. Fingem até chegarem ao ponto de se matarem, mais além da página 250, de ódio e angústia. Mas, até lá, até esse desfecho trágico, seguirão dissimulando e, em voz alta dirão, na última linha, que a culpa é sempre do lugar, nunca nossa.

 




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