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24 de maio de 2017

De hoje não passa

Faz algumas semanas que Jeremias passou a frequentar diariamente o boteco do fim da rua. Sai do trabalho e anda apressado até lá. Bebe vários copos de vinho até quase perder a identidade e as calças. É quando destrava a língua e desanda a falar e a contar vantagem a quem se dispuser a ouvir: diz ele — esse velho de aspecto sujo, com cheiro de urina e hálito de tabaco — que agora está namorando uma jovenzinha trinta anos mais moça, que o faz se sentir homem de novo, cheio de vigor. Ninguém acredita. Jeremias engole o último trago e sai cambaleando.

Em casa, sua mulher, que prefere fingir que nada sabe, lhe prepara o jantar e o banho quente. No quarto que há no fim do corredor, protegida pela escuridão, Juliana rumina o ódio acumulado que sente pelo pai e conta os minutos que faltam para ele abrir a porta e sussurrar seu nome, chamando-a como se chama um bicho de estimação. Cadê a minha cabritinha? A minha cachorrinha?

É quando ela vai saltar sobre ele e enfiar a faca em seu pescoço enrugado e fedorento. De hoje não passa.

 




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24 de maio de 2017 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/mbaggio/" title="Visualizar todas as postagens por Mario baggio" rel="author">Mario baggio Contos homem, ódio, pai

               
              
            
                

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