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1 de fevereiro de 2019

De passagem

para João Silvério Trevisan

Lembro-me bem daquela noite. Minha família e eu comíamos o jantar quando ele chegou. Abri a porta e ouvi sua voz sumida de boca murcha Boa noite. Estou de passagem. Posso ficar uns dias? Serão poucos. Eu disse Claro e fiz com que entrasse. Ele cumprimentou minha mulher e meus filhos, depois olhou para mim e eu indiquei a direção do corredor. Mostrei-lhe o quarto em que poderia ficar. Ele agradeceu. Eu disse Largue sua mala aí. Venha jantar. Comemos em silêncio. A memória me informa que meu pai nunca foi de falar muito mesmo.

Eu tinha treze anos quando ele nos abandonou e nunca mais o vi até aquela noite. Minha mãe nunca comentou sobre o motivo de ele ter saído de casa, deixando atrás de si mulher e filhos, eu tampouco perguntei. Ela apenas disse para mim Agora você manda na casa. Use a voz e a palavra que seu pai nunca teve. Naquela época, àquela idade, eu também não tinha voz nem palavra, mas logo aprendi a ter. Cuidei de minha mãe e de minhas irmãs menores. Faz tempo que minha mãe morreu, minhas irmãs se casaram e foram para longe. E aconteceu que, tanto tempo depois, naquela noite, na minha frente, na mesma casa, jantando comigo e minha família, estava meu pai, silencioso, cabisbaixo e velho, que poucos minutos antes tinha me pedido abrigo vestindo um paletó esgarçado nos cotovelos e carregando uma mala parecida com a dos mascates de antigamente. Um estranho pai, um nunca carinhoso pai, um homem que naquela noite era todo fragilidade, que me surgiu assim, sem que eu pedisse, ao contrário, ele é que pediu. Posso ficar uns dias? Serão poucos, foi o pedido que ele fez com a voz sumida e a boca murcha.

Nos dias em que ficou em casa, meu pai entrava e saía sem falar quase nada. Falava menos que o necessário, porque o necessário era muito para aquele homem de constantes olhos baixos. Eu não perguntava por onde tinha andado nem com quem conversava. Minha impressão é que iria invadir e quebrar a muralha que ele tinha construído em torno de si, e da qual parecia gostar. Hoje tenho consciência de que não ia a lugar nenhum nem conversava com ninguém. O que havia era que as palavras tinham sumido de sua boca e nesta cidade, que já foi dele um dia, se falava um idioma estranho, que ele não compreendia.

Num dos dias de sua passagem pela minha casa, vi meu pai perto da porta da cozinha, olhando pela janelinha que dá para o quintal. Seu olhar acompanhava um passarinho que ia e voltava ao mesmo galho, na tarefa exaustiva de construir um ninho. Ele tinha os olhos mareados. Meu pai chorava. Não um pranto convulsivo, antes um choro silencioso como ele, em que as lágrimas descem em câmera lenta, percorrendo sem pressa os sulcos do rosto até alcançar a boca e o queixo. Sua expressão era de tristeza infinita. Puxei-o com cuidado pelo braço e o coloquei numa cadeira. Sequei seu rosto com um pano de prato. Perguntei O que te fez chorar?

Ele não levantou os olhos para mim, mas percebi que ainda havia tristeza neles. Tentou responder, não conseguiu. Moveu os lábios trêmulos e as palavras não saíram. Tinha ficado tanto tempo sem falar, que desaprendeu. Pôs uma das mãos em concha sobre o peito e voltou a cabeça para a janelinha. Então compreendi. Enterrei meu pai poucos dias depois.

 

 




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1 de fevereiro de 2019 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/mbaggio/" title="Visualizar todas as postagens por Mario baggio" rel="author">Mario baggio Contos família, mãe, pai, passagem

               
              
            
                

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