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9 de agosto de 2018

De um jeito down

Hoje ele não quis que eu fosse junto até a plataforma do metrô. Queria ir sozinho pela primeira vez. Mesmo nervoso, não me pareceu assustado com o piscar das luzes, as conversas em volta, o barulho dos trens, a voz metálica do serviço de alto-falante. Percebi que ele queria provar a si mesmo que tinha coragem. Tínhamos praticado bastante em casa: fizemos experiência com todos os eletrodomésticos funcionando ao mesmo tempo, o aparelho de som em volume alto, o lustre da sala acendendo e apagando. Nada disso o assustou: o menino estava pronto para enfrentar um pedaço do mundo. Fiquei parado enquanto o observava descendo a escada rolante.

Vi com aflição quando ele tapou os ouvidos, abriu a boca e fechou os olhos assim que o trem estacionou na plataforma. Quis correr e tirá-lo de lá, do meio das pessoas que entravam e saíam apressadas, protegê-lo, mas me contive. Eu sabia, e ele também, que tinha chegado a hora em que ele deixava de ser invisível.

— Oi, Fabinho.

Era Aninha, a colega de classe que sempre conversava com ele. Ela estendeu a mão e apertou a de Fabinho.

— Não tenha medo. Vem comigo.

Entraram no vagão e sentaram-se juntos. Vi como tagarelavam sem parar. O trem fechou as portas e seguiu viagem.

Voltei para casa sorrindo feito bobo. Meu filho tem dezoito anos e só necessita que alguém o veja. Aninha conseguiu.

 




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9 de agosto de 2018 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/mbaggio/" title="Visualizar todas as postagens por Mario baggio" rel="author">Mario baggio Contos coragem, down, filho, medo

               
              
            
                

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