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22 de janeiro de 2020

Defumada, com canções

Me tranco na cozinha. Hoje à noite será carne assada com… sem batatas fritas. Já imagino as broncas e reclamações e me canso antes mesmo de começar. Busco um CD do tempo em que eu era eu e ninguém mais. Canção número um, subo o volume até o meio, canto junto, mas não quero atrapalhar os vizinhos. Ah, que se fodam. Enquanto canto, tempero e bato a carne, unto a assadeira e coloco no forno. Lavo a louça que ficou parada na pia desde a hora do almoço. Se eu não lavo, os pratos e talheres e copos apodrecem. Canção número dois, que ritmo gostoso! Arrumo a mesa para não sei quantos, nunca sei quanta gente vem jantar. Foda-se. Canção número três, uma das melhores. Aumento um pouco o volume, que todos os vizinhos ouçam, não ligo. A voz furiosa do cantor me encanta. Os baixos profundos, guturais, os gritos quase primitivos, isso mexe com meus quadris. Preparo a salada rebolando. Subo um pouco mais o volume e sei que não vou ouvir se alguém me chamar, nem o telefone. Que se dane, estou ocupada agora, não tenho espaço para conversa fiada. O que acontece além da porta da cozinha não é do meu interesse. Não agora. Danço e canto como uma louca, suo na testa, no bigode e nos sovacos. Vejo meu reflexo no vidro da janela que dá para o jardim e me desconheço. A primavera já começou, isso eu conheço. Vejo as flores, a roseira cheia de botões. Que bonito é! Canção número quatro, lenta como a maneira que se deve assar um pedaço de carne. É o tempo que tenho, o tempo da carne no forno a cento e oitenta graus. Preparo um molho de churrasco para jogar sobre o assado, isso evita que fique seco. Vou fazer purê, vai bem com carne, toda dona de casa sabe disso. Detesto que me chamem de dona de casa, mas as outras mulheres da família insistem em usar essa expressão. Repetem e repetem isso em cada reunião de aniversário, casamento ou velório. Que se danem. Em minha defesa sempre digo Tem um livro chamado Receitas Rápidas para a Mulher do Século XXI, não ouviram falar? É o livro que tenho na mão agorinha mesmo. Jogar o molho de churrasco com cuidado sobre a carne, de dois em dois minutos, com cuidado para não encharcar. Forno em temperatura média. Quanto é temperatura média? Diminuo para cem graus, isso deve ser temperatura média. Foda-se. Duas horas assando. Tenho dor de cabeça. Fecho o livro e mudo de ideia: volto o forno para cento e oitenta graus. Quero queimar a carne até que fique estorricada, completamente seca. Canção número cinco, aquela que tocava sem parar no barzinho em que eu batia ponto toda sexta-feira, anos atrás. Fui a primeira vez lá com o rapaz que dirigia sem ter carteira de motorista. Louquinho de tudo, meu primeiro beijo foi com ele. Meu pai e minha mãe não gostavam dos meus namorados motoqueiros, então arrumei um que tivesse carro. No tempo dos motoqueiros eu parei de usar as saias curtas para que não aparecessem as marcas de queimadura nas panturrilhas. O cano do escapamento da moto queimava. Usei calça comprida durante muito tempo para esconder. Cheiro de queimado. A carne no forno. Quase um carvão. Espio o CD: canção número seis. Tiro rapidamente a assadeira do forno e a coloco sobre o fogão. A cozinha se enche de fumaça. Queimo a ponta dos dedos. O cheiro de carne queimada é insuportável. Viro a peça usando dois garfos de cabo comprido. A base está preta, com uma crosta escura. Olho o relógio. Ainda há tempo. Tento ficar calma, a música ajuda, torna tudo tolerável. Canção número sete, adoro! A gente cantava isso quando descia de Fusca para Santos, era uma farra só. Subo o volume ao máximo. Agora sim, canto de pulmão aberto e abro a janela para ventilar. Ligo o depurador de ar, que faz um barulho dos diabos. Foda-se. Na vizinhança, os cachorros começam a latir. Ouço gente gritando para abaixar a música. Não dou atenção e canto mais alto ainda. Canção número oito, minha favorita. Me lembra as férias em que fui para o Nordeste. Era Carnaval. Sorrio, quase gargalho com a lembrança. Desfaço o sorriso e me ocupo da carne. Raspo a crosta queimada, deixo a carne limpinha, bonita e apetitosa. Canção número nove. Conheço esse CD de cor e salteado. Falta só uma música. A cozinha já está sem fumaça. Desligo o depurador. Canção número dez, o CD vai acabar e eu vou deixar de ser eu e ninguém mais. Escuto vozes e passos do outro lado da porta. Chegaram. As mochilas das crianças sendo jogadas no chão da sala. Imagino a maleta, o paletó e a gravata largados na poltrona. Aperto o botão stop do aparelho de som. Abro a porta da cozinha e grito lá para dentro Tá na mesa, gente!

 




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22 de janeiro de 2020 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/mbaggio/" title="Visualizar todas as postagens por Mario baggio" rel="author">Mario baggio Contos canções, carne, defumada

               
              
            
                

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