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24 de agosto de 2019

Desde o ovo

A cara de sua mãe. A boneca que jogou pela janela. O livro que queimou dentro do quarto. O aquário que esvaziou no meio da sala, a língua saboreando o peixe vermelho. A cara de sua mãe. O boneco Pipo, as pernas arrancadas do boneco Pipo, o pescoço estrangulado do boneco Pipo. Seu primeiro psiquiatra. O primeiro tapa que deu na cara de sua mãe. A cara de sua mãe, os olhos dela: os olhos de sua mãe. Sua babá, que foi embora no segundo dia. Sua avó materna, que alegou uma desculpa e voltou para casa. Seu pai, que não fumava e disse que iria sair para comprar cigarros. A cara de sua mãe. O gato, assado no forno. Seu segundo psiquiatra. O chute no colega da escola. Seu terceiro psiquiatra. A trança da colega da escola, arrancada com uma tesourada. As duas horas em que ficou de castigo. O dente que arrancou da boca da professora. Seu quarto psiquiatra. O segundo tapa que deu na cara de sua mãe. O rabo do cachorro, cortado, e o sangue que espirrou. A pressa de sua mãe para tirá-la da mandíbula do cão. A cara de sua mãe. A cadeira em que ficou amarrada por algumas horas. Os gritos de sua mãe. A cara de sua mãe. O braço quebrado de sua mãe. O colega da escola que revidou. O pedaço da orelha do colega da escola que revidou. Seu quinto psiquiatra. A expulsão da escola. A procura por outra escola. A recusa do diretor da primeira escola procurada, da segunda, da terceira. O cartão de crédito de sua mãe. A quarta escola: começa na segunda-feira. A colega da nova escola, quase afogada na pia do banheiro. O colega da nova escola, que ela empurrou escada abaixo. A carta, escrita pelos pais dos colegas da nova escola. A expulsão da nova escola. A cara de sua mãe. O homem que passou a mão no peito de sua mãe. O mesmo homem e a mesma mão no seu peito em crescimento. A mancha de sangue no suéter do homem que passou a mão no seu peito e no peito de sua mãe. O corpo do homem, com a mão arrancada, a mesma mão que alisou o seu peito e o peito de sua mãe. A cara de sua mãe. O terceiro tapa que deu na cara de sua mãe. A polícia na porta de sua casa. O ônibus que tomou junto de sua mãe, horas antes. O primeiro motel onde dormiu com sua mãe. O fogo nas cortinas do primeiro motel onde dormiu com sua mãe. A cara de sua mãe. A foto da cara de sua mãe no jornal. O segundo motel onde dormiu com sua mãe. O ódio que sentia por sua mãe. O ódio que a mãe sentia pela filha: a filha era ela. O telefone que sua mãe usou para interromper tudo. A voz de sua mãe conversando com algum policial. A cara de sua mãe. Um olho de sua mãe. Depois o outro olho. A língua de sua mãe. O corpo de sua mãe sem se mexer na beirada da cama. O terceiro motel onde dormiu, dessa vez sozinha. A cara de sua mãe: não. O carro do homem que lhe deu carona na estrada. A própria cara no noticiário da televisão. O carro do segundo homem que lhe deu carona em outra estrada. O corpo do segundo homem que lhe deu carona jogado para fora do carro. Ela e o carro do segundo homem que lhe deu carona. Ela e a vida adulta estendida à frente. A cara de sua mãe: nunca mais.

 




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24 de agosto de 2019 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/mbaggio/" title="Visualizar todas as postagens por Mario baggio" rel="author">Mario baggio Contos mãe, ovo

               
              
            
                

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