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1 de julho de 2016

Despejo

noturnoO homem de uniforme anda de lá pra cá. Cumpre formalidades, registra, anota, papéis na mão. Vistoria todos os cômodos, confere as paredes e o teto, inventaria o que vê: uma mesa, quatro cadeiras, uma mulher em silêncio, alguns armários, um ursinho de pelúcia, um carrinho quebrado, quatro pratos, quatro pares de olhos perdidos, três crianças pequenas. Na contagem, a ausência do masculino: não há marido, não há pai. A mulher permanece estendida no chão, território que não quer abandonar. Abre os braços e crava as unhas no piso. Resiste. Sua arma é a mudez. Nem lágrima há.

Dois operários retiram o que encontram. Depois, como se a casa fosse um formulário, o homem de uniforme dobra em quatro as paredes vazias e as coloca num envelope, umedece as bordas com a língua e finaliza o expediente. Se não paga não mora, caso encerrado.

Não restou nada, apenas um terreno vazio e estéril, pintado de cinza. Suspendidos no ar, a mulher e os três pequenos se encolhem num canto. Imóveis. Pensam e não pensam no futuro. É que, para eles, as lembranças não vão morrer agora, só um pouco mais tarde.

 




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