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14 de novembro de 2019

Desperdícios

Chega um dia em que uma pessoa percebe que existem desperdícios de categorias variadas: de tempo, de energia, de paciência, de oportunidades, de água e luz, de alimentos. Essa pessoa sou eu. Tenho notado que em minha casa praticam-se todas as modalidades, algumas vezes na versão individual, em outras, simultaneamente. A história que narro a seguir pertence à última forma.

Minha mulher se chama Marilda. Moramos juntos e de vez em quando conversamos. Ela disse que pretende me deixar. Isso foi na segunda-feira. Hoje é sexta e ela ainda está aqui. As malas estão prontas e colocadas atrás da porta de entrada. Ela mesma as arrumou, a dela e a das crianças; temos um casal de filhos. Eu gostaria que tivéssemos uma conversa antes, mas ela não se manifesta. Há dias finge que é surda e que é muda. Faz cara de egípcia quando tento falar algo. Hoje começou a fazer faxina logo pela manhã e eu me perguntei: Por que limpar a casa se pensa em me abandonar? Estou convencido de que ela está só me testando. Quer me ver nervoso, mas eu ainda não descobri o motivo. Não estamos casados? Estamos, e já fizemos bodas de estanho, isto é, nosso matrimônio tem dez anos e alguns meses mais. É um sacramento, e não se pode quebrar um sacramento assim, sem mais nem menos, sem, no mínimo, uma conversa. É o que tento lhe dizer, mas ela continua fazendo faxina. Agora ligou o aspirador e o barulho impede que eu continue falando e que ela me ouça.

Sinto fome e vou para a cozinha. Abro a geladeira, está vazia. Olho, de forma automática e enviesado para a lata de lixo ao lado da pia. Levanto a tampa e as vejo. Duas bistecas de porco vermelhas, grandes, ainda dentro da bandeja de isopor, com uma cobertura plástica por cima. Olho a carne por alguns minutos. Então pego a embalagem como se fosse a hóstia consagrada e procuro a data de validade na etiqueta. Ainda não venceu. Faço sinal para minha mulher, que desliga o aspirador e entra na cozinha com ar de enfado. Estou ocupada, o que é que você quer agora? Pergunto por que jogou no lixo as duas bistecas. Estavam cheirando mal, ela respondeu. Aproximo a carne do meu nariz e aspiro. Não vejo nada de errado com elas, eu retruco. Nesse momento as crianças chegam do colégio e entram fazendo barulho. Chamo os dois: Venham aqui, Márcia e Daniel, preciso que cheirem isso, sua mãe diz que a carne está estragada e eu falo que não está. O que vocês acham?, eu pergunto, agachado na frente deles. Minha mulher comenta em tom desafiador: Quero só ver o que vão falar, aposto como vão me dar razão. Aproximo a bandeja de carne do nariz dos dois. Eles recuam, eu insisto. Cheira mal, diz a menina, fazendo cara feia. Está podre, ecoa o menino, afastando a carne com a mão. Não falei?, minha mulher sorriu pelo canto da boca e encerrou o assunto.

Mas eu não encerrei. Tenho certeza de que as crianças reagiram dessa forma para agradar a mãe. Fariam qualquer coisa pela mãe. Mas elas também têm um pai. E eu sou o pai. Não seria o caso de quererem me agradar também? Não quero desistir nem esquecer o assunto e por isso chamo a empregada. Ela vem do quintal, ar ressabiado, e olha desconfiada para os quatro na cozinha, eu ainda segurando a bandeja com as bistecas como se fosse a Bíblia Sagrada. Catita, isso é muito importante, eu digo. Quero que você cheire essa carne e me diga se está boa ou se está passada. A empregada olha para mim, depois para minha mulher, depois para as crianças e finalmente para a Bíblia feita carne e sangue. Pega a bandeja de minhas mãos e cheira o conteúdo com devoção, os olhos fechados. Essa carne cheira que é uma maravilha, diz, sorrindo. Eu complemento, triunfante: Pois a minha mulher, a sua patroa, tinha jogado essas bistecas no lixo, dizendo que estavam estragadas. Olho para Marilda: Viu?

Posso levar pra mim?, Catita pergunta. Hoje em casa não temos nada pra comer, e se estava no lixo… Respondo que sim. Os quatro acompanhamos com o olhar a empregada saindo da cozinha com a bandeja de bistecas bíblicas na mão, parecendo carregar um troféu. Depois de um minuto de silêncio, minha mulher ligou novamente o aspirador para continuar a faxina, as crianças foram fazer a lição de casa e eu fiquei sozinho, olhando para a lata de lixo como se ela fosse tudo o que me restasse no mundo.

Minha mulher disse que pretende me deixar. Isso foi na segunda-feira. Hoje é sexta e ela ainda está aqui. Acho que ela quer me ver nervoso, mas eu ainda não descobri o motivo. Lembrei-me de que tinha algo importante para fazer. Apaguei a luz e saí da cozinha.

 




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