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20 de setembro de 2018

Despir o luto

Voltou para casa exausta e se sentou na cadeira de balanço da varanda. Precisava pensar. Olhou para dentro e viu a sala como a tinha deixado horas antes: os quadros fora das paredes e as paredes nuas; as gavetas abertas, mostrando o que tinham dentro, e o que tinham dentro pouco importava agora. Imaginou como estaria a cozinha: a louça suja na pia, que ela não teve tempo de lavar; as migalhas espalhadas sobre a toalha da mesa; a geladeira cheia de comida vencida. Suspirou e calculou quanto tempo levaria para pôr tudo em ordem. Começaria amanhã, não hoje, que hoje é dia de soterrar lembranças, lamber feridas e encerrar o luto. Isso dá trabalho.

Acabou de cremar o marido. Uma cerimônia rápida e sem rodeios, pondo fim a vinte e cinco anos sob o mesmo teto e sob o mesmo homem. Esse teto, que tem agora teias de aranha aqui e ali. Esse homem, que agora está convertido em cinzas, dentro da urna que tem nas mãos. Só tiveram um filho, que vive longe, e muitas lembranças, que agora querem sair todas de uma vez. A cremação foi breve, alguém leu um poema de Drummond com uma canção de Paul McCartney ao fundo. O caixão desceu para o fogo e de lá vieram as cinzas numa urna de cerâmica entregue pelo funcionário de plantão. Os parentes estavam todos presentes, condolências à frente. O filho veio, mas já foi embora. Depois da cerimônia, parentes e amigos quiseram acompanhá-la de volta à casa, mas ela recusou todas as ofertas. Queria ficar sozinha e é assim que está agora. Deposita a urna no chão e dá novo impulso à cadeira de balanço. Procura relaxar, apesar da desordem que reina na casa.

Sorriu de leve, uma lembrança alegre passou por sua cabeça. Pegou a urna e entrou na sala. Percebeu que havia mensagens na secretária eletrônica. Ouviu a primeira sem interesse. A segunda ampliou seu sorriso. Nos vemos esta noite? Sei que está cansada, mas uma taça de vinho vai lhe fazer bem. No lugar de sempre? Foi para o quarto e escolheu uma roupa colorida, diferente do preto que usava. Tomou banho e vestiu-se. Olhou-se no espelho e gostou do que viu. Enquanto terminava de se arrumar, deitou os olhos na urna sobre o criado-mudo, o que fazer com isso? Sem pensar muito, foi até o banheiro com ela nas mãos e despejou as cinzas no vaso sanitário. Deu descarga e saiu para a rua.

Foi ao local do encontro. Um bar. Pediu um copo de vinho e esperou. Mesmo com o barulho das conversas, não pôde deixar de ouvir um ruído estranho, que só ela parecia escutar. Um som que vinha do encanamento do bar, por onde passa a água suja na direção do esgoto, como se alguém quisesse se libertar dos tubos de PVC e voltar, revirar tudo, causar dano outra vez.

 




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