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1 de novembro de 2016

Detrás do espelho

espelho

Maitê não gosta das noites, os gritos surgem, e ela fica aterrorizada. Sabe de onde eles vêm. Sempre aparecem quando está escuro, como insetos que corroem tudo que é podre e não vão embora enquanto não terminam de se alimentar. Encolhida entre os lençóis, os olhos semicerrados de medo, ela ouve quando os gritos se transformam em gargalhadas e sente vontade de soltar a voz e pedir socorro, mas sua garganta está seca e nenhum som sai dela. Tenta dormir, mas só consegue chorar.

O alívio chega quando amanhece. Os olhos de Maitê agora estão sossegados. Com o dia chegam esses homens de uniforme branco e comprimidos azuis. Eles vieram essa noite também?, perguntam. Ela diz que não com a cabeça, enquanto tenta esconder os braços e as veias carcomidas pelos insetos noturnos.

Ganhou de presente um passeio durante a tarde. Maitê caminha de cabeça baixa pelo gramado e de vez em quando olha para o céu. Recebe no rosto um pouco de brisa e parece apaziguada. A perspectiva do anoitecer, porém, a faz estremecer, ela sabe o que acontece quando o sol se põe e o horizonte anuncia a escuridão. Volta vagarosamente para o quarto, conformada. Sabe que não vai dormir e, mesmo assim, veste a camisola e prepara a cama. Abre a janela e olha o pátio cinco andares abaixo. Vira-se para o espelho no outro lado da parede e respira fundo. Salta antes de os gritos começarem.

Enquanto desce para a morte certa, naqueles poucos segundos que a separam do chão, repete para si mesma Eles estão lá, detrás do espelho. O baque de seu corpo nas pedras do pátio não é ouvido por ninguém. Só irão descobri-la na manhã seguinte. Um dos homens de uniforme branco a viu cair, mas fingiu que não, porque lá ninguém vê nada, ninguém sabe de nada.

 




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1 de novembro de 2016 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/" title="Visualizar todas as postagens por " rel="author"> Contos espelho, morte, noite, queda

               
              
            
                

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