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12 de novembro de 2015

Deus sabe o que faz

homem angustiadoDeus sabe o que faz, disseram todos.

E, porque Deus sabe o que faz, o sono me abandonou e meus olhos acompanham os ponteiros dos minutos e dos segundos. Tento matar o silêncio com uma punhalada e um grito ou dois, e desabo, exausto, no meio dos lençóis amassados. Acendo a luz:

constato que os mortos não dormem nunca:

eles se sentam na beirada da cama e olham quietos, não fazem perguntas, não acusam:

apenas olham.

Perambulo a esmo pela casa deserta, abro a janela:

recebo no rosto a chuva de palavras:

solidão, vítima, culpa, culpado!

Minhas feridas ardem: culpado!

Escancaro as portas, as gavetas:

está tudo lá, intacto:

não vou mexer em nada, penso, e mexo em tudo:

olho, aliso, cheiro, esfrego no rosto.

Procuro os comprimidos:

vidro vazio, caralho, como fui me esquecer de comprar?

De volta ao quarto, os ponteiros ainda correm. O tempo nunca acaba. O ruído de metais se chocando ainda me martela na cabeça e o cheiro de borracha queimada invade meu nariz. Os gritos, ah, os gritos! Olho o retrato em cima da cômoda e minha pequena está lá, sorrindo, com a roupa de princesa que ganhou de aniversário.

Cubro o rosto com as mãos:

escalo montanhas, voo sobre os vales e subo até as nuvens para terminar, derrotado, de novo nos lençóis amassados.

Permaneço aqui, imóvel:

tudo está cheio de lodo, e gritos, e fumaça.

Deus sabe o que faz, disseram todos.

Eu não freei o carro a tempo:

isso foi tudo o que aconteceu.

 




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