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19 de janeiro de 2021

Disputa

Não é sempre que acontece, só às vezes, quando o que o Camarão traz não é suficiente para os dois.

Eliseu e Célia primeiro ficam nervosos como bichos famintos dentro de uma jaula. Amaldiçoam o Camarão, a mãe e toda a família dele. Depois passam à exasperação e, no minuto seguinte, partem para o confronto físico. Os dois rolam pelo chão, aos tapas. Cospem um no outro. E não, esse confronto nem de longe se assemelha ao que acontece quando Eliseu volta para casa bêbado e chama Célia de “cadela comunistazinha, vagabunda” e ela devolve o xingamento com “lambe-rola, porco reacionário”. Isso é quase todo dia, e não é nada. Casamentos, ou qualquer outro relacionamento afetivo, costumam atingir graus de degradação e humilhação que pouca gente imagina. E não é uma raridade.

O que ocorre quando o Camarão joga sujo e não faz o serviço direito é uma hecatombe entre duas pessoas que há horas esperam num quarto mal ventilado e fedorento de suor. Eliseu e Célia, cada um com sua força, se lança sobre o outro como um animal defendendo a cria. Trocam murros, dão pontapés e cravam as unhas no rosto do outro, no pescoço do outro, na virilha do outro. As cadeiras voam pelo cômodo, os copos espalhados pelo chão estilhaçam, as garrafas rebentam nas paredes. Um ameaça o outro com faca de cozinha ou pica-gelo, o que estiver à mão. Ainda não chegaram a se ferir seriamente. A se ferir de morte, não, ainda não. Ainda.

Depois do embate exaustivo de minutos, Célia, muito mais débil do que Eliseu, sabe que desta vez perdeu a parada e se encolhe num canto do quarto, com as unhas cheias dos cabelos que arrancou da cabeça do marido. Chora de dor pelo lábio rachado depois das muitas bofetadas. Limpa com o dorso da mão o sangue que escorre de uma das pálpebras e engole o ranho que sai do nariz e desce até a boca. Soluça alto e chama Eliseu de “veado de pau pequeno, lambedor de coturno”. Está convencida de que não adianta fazer mais nada a não ser xingar.

Eliseu olha para a mulher. Sente pena. Acusa o cheiro de sangue misturado ao de suor no quarto. Abre uma fresta da janela e olha para fora, mas não lhe interessa o que acontece lá fora. Faz o gesto automático de sempre: entrega um lenço para Célia, indicando a ferida na pálpebra. Ela aceita e pressiona o pano contra o olho para estancar o sangue. “Foda-se o meu olho”, diz ela com o que lhe resta de lábios.

Ele, o mais forte, agora já calmo e silencioso, senta-se na beirada da cama e, com a ajuda dos próprios dentes, amarra a tira de borracha no braço e busca, apressado, uma veia que ainda não esteja seca. Enfia a agulha, recebe o baque, sente o baque, saboreia o baque. Fecha os olhos e respira fundo, aliviado.

 




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