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30 de maio de 2020

Divagações sobre o pranto

 

Para produzir um pranto são necessários quilos de sal e litros de água potável. O pranto requer também um entardecer com cheiro de comida e ninguém para compartilhar o alimento, ou então uma madrugada insone contemplando a cidade vazia por trás do cristal da janela. É uma coisa muito, muito grandiosa o pranto. É exigente também: uma poltrona onde se sentar confortavelmente ao lado da tristeza, a falta de emprego e escola, nada para fazer, nada para perguntar, nada do que duvidar. Tudo isso custa e dá trabalho, mas rende um bom pranto. O pranto, além disso, necessita de algo que evidencie a impotência. Por isso não se chora pela morte, chora-se pela certeza da finitude, e isso é duro de admitir. Os desalmados não choram porque para chorar é preciso ter alma; não é outra a razão de não haver tanto pranto por aí: não há, igualmente, tanta alma por aí. O pranto é caro e escasso. Com o aumento de preço cai a demanda e ter um pranto para chamar de seu é um luxo a que poucos têm acesso. Os outros, os mais simples, o máximo que conseguem é derramar umas lagriminhas. É barato.

 




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