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18 de dezembro de 2015

Dois pontos:

mala: porque fazer a mala é tomar decisões: deixar de fora o que não importa e garantir um lugar para o que não se pode viver sem: o acessório e o supérfluo não entram, assim como as roupas que jamais serão usadas ou os livros que nunca serão lidos e, pelo contrário, têm lugar assegurado: o sentido de elegância, o cheiro de que se gosta, a compostura, a atitude, o caráter e o bom hálito. Há certamente espaço para: a autoconfiança, o desejo de algum futuro e a marca que se quer deixar no mundo quando a vida não se fizer mais necessária.

: porque a mala contém a essência de quem a faz: é o seu melhor resumo, a síntese do que se é: o inventário das manias, gostos, intenções, ganhos e perdas daquele que se dedica a arrumá-la: não é outra a razão pela qual se coloca nela o nome do proprietário numa etiqueta: porque ele nunca quer se separar dela, ao contrário: coloca chave, tarjas, cintos, cordas, fitas, cadeados com senha e mais ainda: apõe na frente, de forma visível, o sinal de “Frágil”: sabe que ali dentro está tudo o que lhe pertence, e o que lhe pertence é precioso: que não se perca!

: é por isso que, no momento do check in, se reluta tanto em entregar essa valiosa encomenda a um estranho no aeroporto: cuidará esse estranho tão bem dela como se dono fosse? E é também por isso que se fica ansioso por vê-la aparecer na esteira, em outro aeroporto: espera-se pela própria vida, que vem deslizando vagarosamente até que a mão do dono se apodere do que é dele.

: e, como tudo o que existe debaixo do sol, a mala também envelhece: ganha rugas, manchas, perde a cor e a forma original e a juventude e, pior: fica mais suscetível a perder-se por aí com frequência: sabe-se de viajantes cuja mala foi extraviada e, embora tivessem recebido indenização dos responsáveis, nunca voltaram a ser eles mesmos: porque foi a sua vida que se extraviou.

 




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