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9 de setembro de 2014

Dona Tininha

Dona Tininha morreu ontem. Tinha quase 100 anos. “Vou conhecer o Pai de pertinho”, disse, antes de fechar lentamente os olhos mais azuis de que se tinha notícia naquela cidadezinha do interior.

Era a benzedeira do lugar. Muito procurada, tirava mau-olhado, cobreiro, soluço, tosse e quebranto de crianças e bebês. Em seus braços, os pequenos não choravam, apenas a olhavam enquanto ela rezava e os benzia com arruda e camomila.

Magra como um monge franciscano, dona Tininha só fez o bem a vida inteira. Ninguém saía de mãos vazias de sua casa. Todos ganhavam biscoitos de polvilho ou de canela, cuja receita aprendera com a irmã mais velha. Nem mãos, nem coração vazio: dona Tininha tinha sempre uma palavra boa e de conforto para qualquer um com quem conversasse. Era difícil encarar aqueles luminosos olhos azuis – quem o fazia ficava em estado de graça.

Morando a vida toda naquele fim de mundo, dona Tininha nunca ouviu falar dos black blocs – jovens que escondem o rosto para destruir tudo o que encontram pela frente -, nem de filhos que matam os pais, nem de pais que abusam de seus filhos, nem de jovens acorrentados nus a postes (e que uma rede de televisão covardemente apoiou), nem de ônibus incendiados por vândalos, nem de mendigos mortos a pauladas por jovens endinheirados, nem de mocinhos que bebem e dirigem e matam pessoas indefesas, nem de políticos que roubam o povo e se dizem inocentes, nem de guerras que se dizem santas, em que morrem milhares de civis.

Dona Tininha viveu alheia aos males do mundo. Foi feliz a seu modo simples. Ontem a cidadezinha estava de luto.

 




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