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18 de junho de 2015

E ele?

homem e guarda-chuva

Domingo à noite. Faz frio e chove na cidade e eu caminho lentamente sob o guarda-chuva. Penso: e ele? O que estará fazendo neste exato momento? Será que já tomou banho e está agora na cama, lendo ou vendo um filme? Eu, aqui na rua, desviando das poças d’água, olho as vitrines das lojas fechadas. De vez em quando me fixo num rosto que acabou de passar por mim. E ele? Ao contrário, será que está se divertindo por aí, tomando cerveja com os amigos num bar lotado, conversando, rindo?

E assim, enquanto eu caminho pelas calçadas molhadas, buscando aflito uma maneira de não pensar – e conseguia, por apenas três ou quatro segundos, ao fim dos quais voltava a me inundar de insegurança e incerteza –, o que ele estará fazendo, ou pensando? Será que agora, nesta noite gelada de domingo, ele está pensando em mim? Ou melhor: será que se lembra de mim, de meu nome e do meu rosto?

Paro na frente de uma livraria e olho pelo vidro as capas dos volumes; leio os títulos, mas nenhum deles se fixa em meu cérebro. Só penso nele, no que poderá estar fazendo agora, neste momento em que ando sob o guarda-chuva e sinto esse tremor incômodo nas mãos. Ele, sem saber, faz com que me sinta perdido, frágil, solitário como um cão sem dono.

Entro numa cafeteria para fugir um pouco do frio. Há grupos animados de pessoas nas mesas, conversando, rindo, contando histórias. Peço um café, olho em volta e penso novamente: e ele? Consulto o relógio e constato que faltam apenas quatorze horas para eu me internar no hospital e não consigo deixar de pensar no homem sob cujas mãos estarei profundamente dormido e imóvel, e das quais dependerão a minha vida e o meu futuro.

 




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