Close

28 de setembro de 2015

É noite nos olhos de Celeste

celeste2As cores e as coisas já não existem para Celeste, neste comecinho de manhã. Ela nada vê. A noite permanece em seus olhos, apesar da luminosidade que o dia recém-nascido trouxe. Alcança com a ponta dos dedos o interruptor da luz. O quarto se ilumina: suas retinas, porém, permanecem no escuro.

Jogou o cobertor para o lado e pôs os pés no chão: arrepiou-se quando sentiu o frio na sola. Levantou-se da cama com os braços estendidos. Enquanto se movia, apalpava as rugas da parede, até se encostar na porta. Procurou a maçaneta e a abriu. O coração quase saindo pela boca, a respiração curta, o cansaço: Celeste estava apavorada. Continuava sem enxergar coisa alguma. Noite nos olhos, gelo na alma, suor nas costas, ela começou a chorar baixinho.

Com a palma das mãos seguiu a extensão da parede até alcançar o corredor. Grudou os ombros no concreto e deslizou lentamente até o chão. Sentou-se. Golpeou o piso com toda a força de seus pulsos e soltou o choro caudaloso, a cabeça entre os joelhos. Aos poucos se acalmou, e se aprumou, entre impotente e resignada. Secou o rosto com o dorso das mãos e seguiu calmamente para a cozinha. Passo a passo, alcançou terreno conhecido. Começou a preparar o café.

Tinha acontecido de novo: Celeste sonhou que recuperara a visão.

 




Tags:, ,

28 de setembro de 2015 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/" title="Visualizar todas as postagens por " rel="author"> Contos noite, olhos, visão

               
              
            
                

Deixe um comentário