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9 de setembro de 2014

Ele

Todos se lembravam bem daquele dia: o céu estava roxo e o sol começava a se pôr. Era um entardecer frio de agosto e a beleza que se via prenunciava noite estrelada e calma. Na pequena cidade do interior nada passa despercebido, e os que moram na entrada do município foram os primeiros a vê-lo. Estranharam seu jeito vagabundo, perdido. Andava como se anda em nuvens, os pés tocando de leve o chão, um após o outro. Estrangeiro, olhava ao redor e caminhava. Logo depois foi visto na praça central, ainda com o ar de quem não sabe onde está. Vestia um terno de corte elegante, embora amarrotado e sujo, e estava encharcado. Levaram-no ao antigo hotel da cidade para que se secasse e se protegesse do frio.

Ao ver o instrumento sobre a cadeira, seus olhos ganharam luz. Ficou minutos olhando-o, parado, certamente revivendo um tempo em que fora feliz. Como se atendesse a um chamado, ele foi até lá e acariciou com reverência a superfície negra do acordeão. Sem dizer nada, pegou o instrumento, sentou-se com ele sobre as pernas e começou a tocar. O som que saiu do fole, provocado pela dança harmoniosa de seus braços, mãos e dedos, inundou o ambiente e assombrou os que lá estavam. Aos poucos a sala foi se enchendo de mais e mais gente, atraída pela música que saía daquela união perfeita entre corpo e instrumento. Estávamos diante de um artista. Durante horas ele tocou e maravilhou a população. E assim foi por vários dias, semanas.

Não muito tempo após seu aparecimento, três policiais, acompanhados de alguns jornalistas, chegaram à cidade, procurando-o. Mostraram sua foto a todos, mas ninguém disse nada sobre ele, escondido com segurança no sótão do hotel. Não, senhor, aqui ninguém o tinha visto pelas redondezas. Os homens partiram e a cidade voltou a ouvir a música extraordinária do acordeão.

Ele nunca disse uma só palavra. Não sabemos nada dele, nem seu nome, nem de onde vem, nem sua história. Isso não nos interessa. Sabemos unicamente que é um artista e que sabe extrair do acordeão uma música em tudo divina, em tudo arrebatadora. A cidade mudou depois que ele chegou aqui, nossa vida agora é feliz porque temos a música que ele toca, que nos acalma e nos transforma em pessoas de bem. Ele é nosso e não queremos que vá embora. Vamos protegê-lo. Desejamos que fique sempre conosco, ele, o artista que chegou à cidade debaixo de um céu roxo, naquele entardecer frio de agosto.

 




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9 de setembro de 2014 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/" title="Visualizar todas as postagens por " rel="author"> Contos acordeão, artista, música

               
              
            
                

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