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7 de setembro de 2016

Eletrodomésticos

máquina de lavar

Se eu tivesse um cachorro, talvez não começasse a falar com a lavadora de roupas, digo pra mim mesmo enquanto, como faço toda sexta-feira quando volto do trabalho, jogo dentro da máquina as peças sujas da semana, adiciono sabão em pó e amaciante e ligo o programa Edredon, que é o mais longo e protege mais os tecidos. Sento-me no chão na frente dela, as pernas em xis.

Observo como a caixa metálica começa a trabalhar, ouço o barulho alegre da água escorrendo desde o reservatório até o centro do cilindro. Afrouxo a gravata, tiro os sapatos e coloco o celular ao meu lado, embora saiba que ninguém vai ligar pra mim. Agora o som da lavadora fica mais agudo e o giro começa, primeiro bem devagar, depois ganhando velocidade.

Limpo a garganta e conto a ela a primeira coisa que me vem à cabeça. Falo que a cafeteira do escritório quebrou e deixou todo mundo desarvorado. Conto que na noite anterior dormi no sofá com a televisão ligada porque tive preguiça de me levantar pra ir até o quarto e quis aproveitar que o sono finalmente tinha vindo me visitar, depois de tanta insônia. Como se estivesse ruminando minhas palavras, a lavadora diminui o ritmo e agora faz uma pausa para o molho, antes de reiniciar o giro. Vejo meu rosto refletido no vidro, no meio da roupa parada e imersa na água. Calças, camisas, cuecas, meias, camisetas — ali dentro estava uma semana da minha vida.

Não tenho segredos com ela e confesso que andei de mau humor nos últimos dias. Tudo me exasperava. O plim do forno de micro-ondas, por exemplo, como é irritante! Está sempre me lembrando de que eu tenho que jantar comida congelada, o insolente!

Como se partilhasse da minha raiva contra o micro-ondas, a lavadora recomeça o giro das roupas com grande velocidade e barulho, e eu aproveito para lhe contar o desastre que foi meu último encontro amoroso. Por que raios ninguém, na vida real, é igual à foto que publica na internet? Isso é uma coisa muito desgastante!

A lavadora agora parece um robô enlouquecido, batendo e girando as roupas sem parar, então tenho que gritar enquanto ela se aproxima do final da lavagem, como se estivesse atingindo um orgasmo longamente esperado. E assim, relaxada, ela vai diminuindo a velocidade até parar completamente. Fim do programa. A lavadora emudece e eu não sei o que fazer com esse silêncio todo que agora desceu sobre a cozinha.

Abro a porta e retiro as roupas úmidas como peixes recém-sacados da geladeira. Olho para aquela imensa boca aberta e sinto o calor que vem de lá de dentro. Meto a cabeça e grito Ei, tem alguém aí? Espero a resposta, que não vem. Apalpo as paredes ainda quentes do cilindro e percebo como é grande, bem maior do que eu supunha. Tão grande que é capaz de caber uma pessoa aqui dentro. Enfio os braços e, sem muita dificuldade, introduzo também meus ombros. Estou agora com metade do corpo dentro da lavadora e exploro com os dedos aquele interior branco e perfumado. Dobro uma perna e a introduzo na máquina, faço o mesmo com a outra. Entro completamente. Fecho a porta e o silêncio que há aqui me dá sono, e eu durmo.

 




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