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5 de janeiro de 2017

Elizete e a vitrola

Sempre gostei de você, Elizete, sempre. E agora que somos velhos, sozinhos, eu posso lhe dizer isso. Antes não: você era a mulher do Jovino Penitente. Olhe só que coincidência, a gente poder se encontrar de novo aqui neste café onde você trabalha! Como passa o tempo! Parece mentira, Elizete, que agora você esteja falando comigo, mesmo que seja só pra perguntar o que quero beber.

Naquele tempo eu era um garoto quando vinha aqui no café. Vinha só pra ver você, a deusa do bairro, a deusa do café, com a sua saia florida e rodada e a blusa branca, com pouco decote. Mas que decote, Elizete! Lá no alto, no palco onde ficava a vitrola, pra mim você era uma santa que colocava os discos com as mais belas melodias do mundo, você era a deusa da música!

Não, o palco já não existe mais, Elizete, e mesmo este café sucumbiu às modernidades de hoje em dia e não tem mais vitrola para pôr os discos pra tocar. Agora há música ambiente, uma bobajada. E ninguém mais ouve boleros. Você se lembra? Você colocava um disco na vitrola e nós, eu e os outros garotos, olhávamos suas pernas se movimentando ao som da canção. Indiferente, você olhava pela janela para algum ponto indefinido e distante, nunca conseguíamos adivinhar a cor de seus pensamentos. Eu me lembro, Elizete, das meias de seda que embrulhavam suas pernas e me dá vontade de chorar. Naqueles dias eu fechava os olhos e fingia que era você cantando aqueles boleros, não a Dolores Duran ou a Maysa, não a cubana Portuondo. Era você, a melhor cantora de todas.

Eu nunca pude dizer nada, Elizete, porque era só um moleque e o olho do Jovino estava o tempo todo em cima de você, aquele bruto sem um pingo de sentimento. Ele era seu dono, não um homem que lhe dava amor, como eu seria capaz de dar. Eu nunca bateria em você, Elizete. Até que aconteceu a desgraça que os jornais contaram, a última surra lhe fez perder os sentidos e, quando acordou, você o empurrou na linha, um segundo antes da passagem do trem. Depois veio o tempo na prisão, e parece que fizeram uma tatuagem feia no seu rosto, Elizete, porque só se vê tristeza nele. Não chore, já passou. Agora você está de volta neste mesmo café e está conversando comigo, mesmo que seja só pra perguntar o que quero beber.

Ouvi muitos discos nesse tempo, Elizete, muitos boleros, e nunca me esqueci de você. Se você quiser, se não levar a mal, eu faço um convite: venha comigo até minha casa pra tomar uma bebida e escutar os boleros de antigamente. Não, não é tarde. Nunca é tarde quando a alegria vale a pena, não é o que dizem? Comprei uma vitrola, igualzinha àquelas de antes. Todos os dias eu limpo, dou lustro. Ela está brilhando. Também tenho alguns discos, aqueles. Só falta você.

 




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5 de janeiro de 2017 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/" title="Visualizar todas as postagens por " rel="author"> Contos bolero, café, discos, vitrola

               
              
            
                

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