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28 de abril de 2020

Embocadura

Ontem à noite dei de lembrar.

Lembrei-me de uma canção e dei de cantar.

Era uma canção antiga,

canção de ninar dos meus tempos de menino.

 

Quando terminei, doeu-me a mandíbula,

porque tive que mexer a boca de uma forma nova

para emitir aquelas palavras.

Eram velhas as palavras da canção,

palavras que não se usam mais hoje em dia,

palavras com gosto de leite

e cheiro de rua sem asfalto,

que vieram à minha memória e à minha boca

com tons distintos, envoltas em sombras de celofane.

Tive que me esforçar para pronunciá-las:

embocadura desacostumada.

 

Não foi só a mandíbula que me doeu.

Os olhos também.

 




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