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1 de maio de 2017

Enquanto isso

O tempo está sujeito a chuvas e trovoadas, o horizonte parece mais distante e inatingível como o daquelas tardes à beira do mar, quando se faz planos inúteis para o futuro. Uma garota brinca com seu cachorro na rua onde poucos carros passam. Corre uma ambulância com a sirene ligada, e eu jogo fora, mais uma vez, outro poema que escrevi sem pensar.

A história se reescreve diariamente como um autômato, tantos fatos iguais se repetem até que fiquemos fartos. Caem os heróis de ontem, e hoje não conseguimos fabricar um novo — não tiramos ninguém de real valor dentre essa gente de pele mole, olhos opacos e nervos flácidos. Minha memória tenta resistir, mas já conhece seu tempo de validade, e eu luto até a exaustão para permanecer. Sei que só ela sobrará quando eu me for.

Vejo presidentes passando na rua, vejo também os dissidentes, e a proximidade entre todos eles me espanta. Vejo um bloco de Carnaval vestido de falsa alegria, os foliões tocam bumbo e corneta e gritam frases estridentes, mas a voz de todos não tem vibrato nem metal e não alcança além dos próprios ouvidos.

Ouço sobre o suicídio coletivo de baleias no Mar do Norte, a televisão se esforça para mostrar que já não há mais nada a mostrar, as galinhas põem ovos coloridos, eu tomo um sorvete de chocolate e observo com preguiça o deputado que vocifera no plenário contra a corrupção.

Enquanto isso, tua cintura cresce e se arredonda, eu beijo teu umbigo e juntos aguardamos a chegada de nossa cria.

 




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