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17 de fevereiro de 2016

Entre parênteses

vida pacataHá cidades que têm lugares assim: peculiares. Únicos. São lugares cuja vida está entre parênteses, suspensa no ar, alheia ao vento, ao tempo e ao que ocorre no entorno. Não é tarefa fácil encontrá-los, nem são encontrados como se busca qualquer outro lugar. Sei disso porque dou de cara com lugares assim sem que me aperceba disso. Não os procuro, eles é que se apresentam diante de meus olhos e não tenho como fingir que não os vi. Esses lugares me chamam, me puxam feito ímã e eu vou ficando. Se tenho que deixá-los uma hora qualquer, sempre dou um jeito de voltar a eles.

Nesses lugares o tempo corre em outro ritmo, com outra cadência, fora das armadilhas do cotidiano. Detém-se, retrocede, logo avança, para um pouco e flerta com a paisagem, depois retoma o jeito malemolente de prosseguir. Assim é o tempo nos lugares entre parênteses. É inútil olhar o relógio; ontem mesmo suspeitei ter gastado horas apreciando o voo de um passarinho e, quando percebi, só uns poucos minutos tinham transcorrido.

Nos lugares entre parênteses é que vejo a mulher que estende roupas num varal, aproveitando o sol daquela manhã fria de inverno. Dispõe as roupas na corda e senta-se num banco ali perto, esperando. Ela vai ficar muitas horas aí, penso. Tira um cigarro do bolso do casaco, cruza as pernas e solta baforadas apreciando o dia e o movimento da rua. Ela olha para mim, percebe que não sou dali e diz Bom dia! Respondo com igual gentileza.

Um homem passa por nós com a sacola de pão fresquinho numa das mãos e o jornal do dia na outra. Para por um instante, Vou ver se meu pai já chegou da caminhada da manhã, senão terei que buscá-lo; ele se perde fácil por aí. A memória, sabe? Anda falhando demais. Bom dia! E esse frio? A mulher solta mais uma baforada, Essa noite geou, mas no sol está gostoso. Bom dia, Aparício. Abraço pro seu pai. O homem retoma o caminho.

Pouco depois um menino passa correndo com um cachorro na coleira, os dois no mesmo ritmo. Dona Geni, hoje tem pelada no campinho. Já lavou minha camiseta? A mulher apaga a bituca com a ponta do chinelo, Já lavei, pirralho, e vê se não me traz de volta cheia de barro como da outra vez. O menino, já longe, Pode deixar, hoje o campinho tá seco.

O velho passa devagar, com o andador. Bom dia, dona Geni. Bom dia, estranho. Dona Geni responde, eu respondo: Bom dia. Eu olho a cena: o velho põe o andador de lado e senta-se ao lado de dona Geni. Esfrega as mãos para aquecê-las.

– O Aparício passou agorinha. Comprou pão. Disse que ia procurar o senhor pra tomar café – dona Geni acende outro cigarro.

– É mesmo? Bom, então tenho que ir pra casa – o velho levanta-se com dificuldade.

– E não pare no caminho, senão o café esfria – dona Geni o ajuda com o andador.

A passos miúdos, o velho avança pela calçada, olha para cima e recebe o sol no rosto. Dona Geni levanta-se do banco, comenta comigo que seu filho virá almoçar com ela hoje e sorri, Talvez ele traga o Marcelinho, faz tempo que não vejo meu neto. Vou fazer doce de leite enquanto a roupa seca. Tenho que ir agora. Bom dia. E vai sem pressa para dentro de casa.

Eu permaneço ali, sorvendo a paisagem desse lugar entre parênteses, que não tem hora, nem tempo, nem vento, nem nada. Concluo que as pessoas que vivem nesses lugares também estão entre parênteses.

 




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