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23 de outubro de 2015

Entrevista

incêndio– E quando acontecerá o incêndio?, perguntou o repórter.

– Amanhã, no final da tarde. Estamos preparados. Será geral, global. E, como todo incêndio, terá um caráter de purgação, de expiação. Será purificador.

– Haverá baixas?

– Sim, infelizmente. As baixas serão entre os resistentes, os falastrões, os que defendem causas vazias, os submissos, os dissimulados, os que nunca sabem de nada. E entre os mais pobres, que não têm meios de se defender.

– Quem sofrerá mais com as consequências da queima?

– Todos sofrerão, sem distinção. Laços serão desfeitos, os acordos serão quebrados, as alianças já não terão valor algum. No começo todos vagarão perdidos pelas cidades e pelos países, como gente abandonada num deserto sem fim. Depois de um tempo a resignação preencherá as almas e um pequeno ramo verde, que alguém encontrará algures, indicará que o tempo da reconstrução chegou. Todos recuperarão o sentido mais rigoroso da realidade. Alguém terá a ideia de recomeçar tudo de maneira mais simples, mais pura, mais consciente, sem supérfluos. E, finalmente, todos se adaptarão à nova vida que existirá debaixo do céu. Como os ratos.

– É uma questão de sobrevivência?

– É uma questão de sobrevivência.

 




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