Close

27 de janeiro de 2017

Epitáfio

Não me venham com essa história de Mãe devotada, nossa eterna saudade. Escrevam aí: Morreu de cansada. Porque é assim que estou e me sinto: cansada.

Saio desta vida com alívio, não preciso trabalhar mais. Chega de varrer, cozinhar, lavar, passar, limpar, costurar, chega! Não vou levar comigo os baldes nem os panos de chão que me fizeram companhia todas as horas, isso é coisa inútil que fica aqui neste mundo. Vou cruzar os braços e recostar minha cabeça, já que em vida nunca tive tempo pra esses luxos. O almoço tá pronto? Costurou minha camisa? Cozinhou feijão hoje? Passou meu vestido novo?

Livro-me deste vale de lágrimas, sabão e vassouras que foi a minha vida, e já vou tarde. Graças a Deus vou pra um lugar onde não há poeira nem roupa pra lavar. Ninguém vai me pedir de comer, não vou ter que limpar e arrumar a casa como condenada. Aleluia, meu Pai, bem-aventurada que sou! Minha última morada não terá cozinha nem área de serviço, nem nada voltará a ficar sujo.

Vou embora da vida da mesma maneira que vim: sem nada nas mãos, sem sorte, sem qualquer consideração além do esquecimento. Então que esqueçam esta pobre velha! Vim com a sina da obrigação, mas agora estou desobrigada de tudo. Porque estou cansada. Não chorem por mim, não carece. Economizem as lágrimas, os olhos e os lamentos: eu já não preciso deles.

Escrevam aí: Aqui jaz uma mulher que morreu de cansada. E me deixem em paz.

(texto inspirado na canção Réquiem de madre, de María Elena Walsh)




Tags:, , ,
               
              
            
                

Deixe um comentário