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28 de maio de 2017

Escaninhos

Antes de desligar o telefone, dona Elisa olhou para o fogão cheio de panelas fumegantes. Olhou depois para a mesa posta com capricho. Respondeu com voz mansa: Tudo bem, filho, fica para outra vez, não tem problema.

Meu filho vem me visitar e vai trazer meu neto para eu conhecer, tinha dito ao Percival Açougueiro no dia anterior, quando foi comprar as carnes para o assado. Contou às vizinhas, animada; a da direita duvidou: Tem certeza? Olhe que da outra vez ele disse que viria e não veio.

Ora, é claro que tenho certeza! E já é mais que hora de eu conhecer o Marcelinho, não é? Não é. Não era.

O único filho de dona Elisa não deixava faltar nada à mãe. Pagava as contas e ainda enviava um dinheirinho mensalmente para complementar a aposentadoria. É um bom filho, diziam, dá tudo para a mãe. Dona Elisa concordava É mesmo um bom filho, e apertava as mãos no peito, lá onde existiam os escaninhos da alma que têm nomes como Afeto, Atenção, Carinho, Olhar Amoroso, Tempo, Dedicação, Desvelo, Paciência. As mãos de dona Elisa tateavam os escaninhos em busca de conteúdo. Estavam vazios.

Dona Elisa olhou toda aquela comida, não podia jogar fora. E percebeu que a tarde, que mal começara, ia ser longa. Tudo bem, filho, fica para outra vez, não tem problema. Desligou. É claro que tinha problema. É claro que tem problema.

 




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28 de maio de 2017 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/mbaggio/" title="Visualizar todas as postagens por Mario baggio" rel="author">Mario baggio Contos alma, comida, escaninhos, filho, problema

               
              
            
                

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