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1 de dezembro de 2017

Esconde-esconde

Com o tempo minha mulher se acostumou com meu sonambulismo. A convivência tem dessas coisas, entre elas o dom de converter nossos atos mais estranhos em aborrecida rotina e agora, quando me levanto no meio da madrugada, ela não se perturba mais e segue dormindo.

Há algumas noites uma novidade se incorporou à minha mania de caminhar de olhos abertos, embora esteja dormindo: o alcance de minha ronda. Antes restritos ao espaço da sala, cozinha e área de serviço da nossa casa, meus passos agora me levam para lugares um pouco mais distantes. Acontece assim: pego a chave, abro a porta da frente, cruzo o jardim e entro na casa vizinha. É uma casa exatamente igual à nossa, por dentro e por fora. Na entrada, há o mesmo cabideiro onde costumo pendurar o casaco de inverno, na sala o televisor ocupa lugar idêntico, na frente dele há a mesma poltrona de veludo. Na parede da direita, a mesma reprodução de um quadro de Volpi e, sobre a mesa de jantar, o mesmo vaso de gerânios vermelhos. Igual tapete cobre o chão do corredor. Na cozinha, idênticos armários, idênticos utensílios. No dormitório, reconheço a mesma cabeceira da cama, em maciço carvalho, os dois criados-mudos, um em cada lado, e o abajur sobre eles. Um casal dorme tranquilamente, e noto como ela é bonita, tão bonita quanto minha mulher.

Dando um longo suspiro, o homem se levanta dormindo de olhos abertos e, tão natural quanto o amanhecer ou o pôr do sol, caminha quarto afora. Ele passa por mim sem me notar. Eu ocupo seu lugar na cama junto à mulher adormecida. Ela cheira a alfazema. Vejo pela porta entreaberta que o homem atravessa o corredor, entra no escritório e começa a digitar velozmente no computador. A impressora faz barulho quando cospe várias folhas, mas nem assim ele desperta. Em seguida, ouço que ele abre a porta da frente e sai para o jardim, carregando nas mãos um maço de papéis. Pela janela, vejo que ele entra em minha casa, cuja porta eu tinha deixado aberta. A mulher que estava a meu lado de repente acorda, me abraça e mostra que deseja fazer sexo. Fazemos, entre o cheiro de alfazema, o dos lençóis recém-lavados e o do nosso corpo quente.

Quando acordo, estou em minha casa de novo, deitado em minha cama e com minha mulher ao lado. Não pergunto nada a ela, pois não quero saber. Levanto-me e olho para a casa vizinha: as cortinas ainda estão fechadas, o carro estacionado na garagem e o jardim com a grama aparada.

Eu ainda não conheço nossos vizinhos. Enquanto tomava café, perguntei, sem olhar para a minha mulher, de maneira dissimulada, se ela os conhecia. Ela respondeu que só de vista, um “bom dia” e nada mais, e mudou de assunto. Terminei o café na mesa do meu escritório onde encontrei, ao lado do teclado do computador, e como em todas as manhãs, o novo capítulo impresso de um romance.

E eu não sou escritor.

(ilustração de Erik Johansson)




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