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12 de julho de 2020

Espantando urubus

Eduardo pula cedo da cama e, como sempre faz, não arruma a cama. Também não tira o pijama porque não dorme de pijama: tem a péssima mania de dormir de roupa. Toma um café preto e ralo e sai de casa tremendo de frio. Hoje não calçou o Nike, preferiu o sapato velho, já que sabia bem aonde tinha que ir. Como companhia, um cajado pequeno como seu tamanho, um ou dois sacos plásticos de supermercado e um lenço que sua mãe lhe amarra ao pescoço. Em determinado momento esse lenço vai servir para cobrir seu nariz e sua boca: há gases lá, há cheiros, há micróbios, há bactérias e outros tipos de porcaria. Era o lenço de seu pai, agora é seu, pois virou o homem da casa desde que seu velho saiu para comprar cigarro e nunca mais voltou. A mãe grita da porta: “Não esquece de cobrir os olhos também e não respire a fumaça que sai do chão”. Depois de andar quase uma hora, Eduardo chega ao monte enorme. Percebe que está atrasado e quase não há onde fuçar: mais de cinquenta meninos chegaram antes e fuçaram primeiro, já pegaram os melhores restos, os mais frescos, aqueles que ainda serviam para comer. Mesmo assim, Eduardo cobre o rosto com o lenço, mete os pés no monturo e, com o cajado, espanta os urubus.

 




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