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23 de outubro de 2015

Esses dias tão iguais

dias iguais2Não acontece nada

Naquele banco de praça estão sentados um pai e seu filho. É uma manhã ensolarada de quinta-feira e os dois deveriam estar trabalhando. Mas não estão. Sentados ali há várias horas, de cabeça baixa, não conversam. O pai se chama Francisco e tem cinquenta e três anos. Trabalha desde os catorze. O filho, Augusto, tem vinte e sete anos, uma menina de quatro – Araceli – e um financiamento imobiliário de trinta. Entre eles está o jornal do dia, aberto na página de classificados de emprego.

 

O cansaço do sol

Como acontece todas as tardes, quando seu pai voltar da rua e da angustiante procura por um emprego, Araceli estará à janela observando se, naquele dia, o sol descerá mais rápido que de costume, exausto na sua luta contra a noite. Ela percebeu que hoje o sol se mostrou um pouco mais lento e cansado. Ao ouvir a porta da rua, corre para abraçar o pai. Ouve, como todos os dias, sua mãe perguntar:

– E então, Augusto, teve mais sorte hoje?

Vai olhar para o pai e ouvi-lo suspirar, antes de responder:

– Hoje também não.

Araceli sabe que, após esse breve diálogo, vai cair o silêncio na sala e, em seguida, sua mãe voltará à cozinha para terminar o jantar. A menina entende que as coisas não andam bem em sua casa, em seu bairro, em sua cidade, em seu país – mesmo que não lhe contem nada e até evitem falar sobre esses assuntos na sua presença. Mas está segura de que, no dia seguinte, seu pai voltará a se levantar com energia e disposição para sair à rua e recomeçar a busca. Quanto ao sol… ela não tem tanta certeza assim.

 

Quando as palavras sobram

Francisco entra em casa e olha em volta. Vai até a cozinha e pega uma garrafa de vinho. Se os tempos fossem outros, começaria uma conversa animada com a mulher, aguardando que ela terminasse o jantar. Hoje, não. Na cozinha, Carmem interrompe o que está fazendo e o indaga com os olhos, sem palavras. Francisco baixa a vista e volta para a sala. Toma um gole de vinho e se prepara para uma nova e longa noite de silêncio.

 




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23 de outubro de 2015 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/" title="Visualizar todas as postagens por " rel="author"> Contos dias, emprego, pai e filho

              
            
  1. Mário
    Nao tem amor, nao tem casamento que resista a falta de dinheiro, choupana e amor só na literatura, que dias vivemos….e como você retrata isso, parabens

  2.     
                        
              
            
                

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