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14 de setembro de 2016

Esta tarde vi chover

amigos-velhos

Donato e Cirilo se sentam todos os dias no mesmo banco de praça e conversam. Enquanto tomam sol e esfregam as mãos para espantar o frio, Donato — que na realidade não se chama Donato — pergunta a Cirilo sobre sua esposa. Cirilo — que tampouco é Cirilo — responde que a defunta vai bem, embora um pouco desanimada e sem muito apetite, coisas da idade, certamente. Donato assente com a cabeça e diz que o mesmo acontece com sua mulher, falecida há mais tempo que a esposa do amigo, ela tem um zumbido nas orelhas que a irrita, por isso passa a maior parte do dia nervosa e sem paciência, mas na hora do almoço está sempre alegre e fala como uma arara, chega até a me dar um beijo!

Logo mudam de assunto e começam a falar dos filhos que faleceram nos últimos anos e dos que aparecem de vez em quando para uma visita, você sabe, meu amigo, os moços de hoje em dia não têm tempo pra nada, geralmente moram longe e a correria é grande quando se tem saúde e disposição. Falam também dos netos que não têm e dos que têm e são a alegria dos avós, pena que não os vejam sempre.

Comentam sobre a guerra, a maldita guerra na qual combateram quando ainda eram meninos de calças curtas, discutem também a respeito da crise, essa cadela asquerosa que transformou a cara de toda gente numa carranca horrível, menos a nossa, que nós não temos nada a ver com isso, e terminam a palestra evocando um bolero aprendido na juventude, que começa assim: Esta tarde vi chover, vi gente correr, e não estavas tu… Donato canta baixinho, Cirilo o acompanha no assovio.

Os dois se despedem como os bons e antigos amigos que são e cada um toma uma direção e caminha devagar pela praça. É assim que a vida acontece, conforme o dia, segundo o sol, de acordo com o vento e a maré.

 




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    • Que emocionante, Rafael! Há muitos Donatos e Cirilos soltos aí pelo mundo, não é verdade? É uma pena que não prestemos mais atenção a eles. Obrigado pela visita e pelo comentário. Abraço.

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