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20 de janeiro de 2017

Eu amanheci e entardeci; não sei se anoiteci

Amanheci e saí de minha casa para sair de minha cidade. Sem olhar para trás: esse era o meu plano.

Primeiro abandonei minhas ruas habituais, lá onde comprava o pão e o jornal, lá onde meu cachorro fazia cocô, lá onde cortava meu cabelo, lá onde conheço a pele dos edifícios e das sarjetas. Lá onde o tempo é um pouco mais lento que o marcado nos relógios. Não há pressa quando tudo está perto e o que está perto é seu.

Depois deixei também as ruas principais, lá onde tudo é anúncio e movimento, lá onde os cotovelos e as bolsas e as sacolas se roçam, lá onde dominam os automóveis, o barulho e as ofertas e as mentiras. Lá onde o tempo tem a cara e a velocidade de Usain Bolt e é o cobrador implacável das urgências e das tarefas prontas.

Não demorei a chegar à parte extrema da cidade, lá onde estão as grandes avenidas e as urbanizações a meio caminho, a meio caos. Lá onde existem árvores sem sombra, comércios com portas fechadas e canteiros com flores mortas, mortas pelos motoristas sem cuidado. Lá onde o tempo e o relógio andam juntos: um minuto dura exatamente sessenta segundos. Lá onde o certo é certo, o errado é muito errado.

E então minha testa ficou coberta de suor, meus sapatos ficaram sujos de poeira e cansados de meus pés. O sol não, este não se cansou de mim. Cheguei ao ponto onde a cidade acaba e ali começou a terminar esta história. Porque girei a cabeça pela primeira vez para avaliar o caminho percorrido e percebi que não havia caminho, tampouco minhas pegadas impressas no chão.

Tudo o que meus olhos alcançaram ver foi a certeza de que, por muito que caminhasse, eu estaria sempre no mesmo lugar, carregando o mesmo pesadelo, a mesma dor do passado, a mesma perspectiva de futuro, o mesmo presente de teatro de sombras para uma plateia de espectadores sonolentos.

Foi quando entardeci e quis retornar à minha cidade e à minha casa. Esse era o meu plano. Mas, ao dar o primeiro passo de volta, comigo me desavim. E agora não me encontra ninguém, e eu também não me busco. Não sei se cheguei a anoitecer.

 




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20 de janeiro de 2017 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/" title="Visualizar todas as postagens por " rel="author"> Prosa Poética cidade, plano, ruas

               
              
            
                

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