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11 de março de 2019

Eu matei Sebastião Ramiro

Eu matei Sebastião Ramiro porque Sebastião Ramiro era um assassino e não valia nada. Passou a vida matando desafetos nesta cidade e em outras também. Alguns lhe deviam dinheiro e por esse motivo levaram um tiro e foram cuspidos de volta à terra seca e infértil daqui. Ninguém o enfrentava, tinham medo daquela vermelhidão que ele ostentava na carantonha, certamente provocada pelo hálito violento e cruel que existia em seus intestinos. Eu também tinha medo, agora não tenho mais.

Matei o velho Ramiro, sim senhor, não precisei dar mais que cinco tiros no peito, cinco balaços bem dados. Assim que saquei a pistola do bolso, os bêbados pularam fora do boteco. Só ficamos eu, o dono do estabelecimento, Salvador Talasca, que se escondeu atrás do balcão, e ele, Sebastião Ramiro.

Quando percebeu a debandada, o velho se virou para mim e riu. Pediu que lhe fizesse um favor: que eu fosse ver se ele estava na esquina e que caísse fora de lá, pois boteco não era lugar para moleque. Eu já tenho dezoito anos. Nem por uma porra eu saio daqui, eu gritei, tremendo com a arma na mão, o suor escorrendo pelas costas e molhando minha camisa. Ele me olhou com uma calma que aumentou o meu pavor e estirou ainda mais os meus nervos. Voltou a cabeça para o Talasca e gritou por uma dose de pinga. Bebeu de um gole só. Sinalizou o copo com a cabeça, sugerindo que eu também emborcasse dois dedinhos. Eu disse que não, enquanto agarrava a pistola com as duas mãos para disfarçar o tremor. Pediu para dizer umas palavras; concedi.

— Sabe o que é, rapaz? Eu gostaria de morrer fora de um boteco. Os botecos são lugares sagrados. Eu nunca matei ninguém dentro de um boteco, nem mesmo aquele sujeito que diziam que era seu pai… Alaor, não era esse o nome dele? Aquele pingucinho de merda. Ele me devia dinheiro e não pagava, por isso meti uma bala nele. Daí a viúva, sabe como é, você é homem como eu, a viúva, que por acaso é sua mãe, ainda nova e esperta de corpo, você pequenininho feito uma pulga, eu propus casamento… Fui um pai pra você, dei beijinhos na hora de dormir e…

Você não é meu pai, gritei, espumando de ódio acumulado. Não deixei o velho continuar. Cinco tiros no peito. O sangue saiu limpo, com aquele tom de negro sobre o vermelho, sinal de morte já sacramentada. Morreu sem ninguém que lhe rezasse um rosário. Matei Sebastião Ramiro e fiz o sinal da cruz no meu peito e gritei de alívio. Minha voz ecoou no boteco vazio, o lugar sagrado do velho. Fiquei dilacerado. Não é pouco matar um pai postiço que matou o pai verdadeiro da gente, não é pouco ser o filho aquele que leva a vingança até o seu final. Na manhã seguinte me tiraram do boteco arrastado, tão bêbado estava que nem me lembrava de quem era.

No domingo não vou à igreja, não senhor, que por ora não preciso de igreja. Vou visitar o lugar sagrado onde matei meu pai e brindarei com toda a cerveja que puder beber. O senhor e todo mundo aqui me devem agradecimento. Livrei a cidade do demônio. Matei o demônio. Estou santificado.

 




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