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24 de julho de 2017

Eu teria feito o mesmo

E disso não se duvide: eu vi.

Vi que aquele pequeno pássaro, como é hábito entre os pássaros, estava pousado no galho de uma árvore, imóvel, como se de pedra fosse, olhinhos fixos no além, no muito distante, onde o céu se derrete num ponto esfumaçado e se funde com o falso fim do mar, formando, céu e mar, uma única e indissociável linha. Vi quando ele, talvez atendendo a um chamado, abriu as asas e voou em disparada, flecha certeira e pontiaguda, na direção daquele horizonte inatingível. E fez isso com tamanha determinação e urgência, que se poderia pensar que intuiu o impossível, algo como a origem e o fim dos tempos e da luz, e quisesse ir até lá para se certificar. Foi, mas não chegou muito longe. Surgindo do nada, uma ave de rapina abreviou o seu voo e, de um golpe só, comeu sua vida, seu fôlego e sua sombra. Nada restou do pássaro que fitava, com os olhos muito abertos, a união entre céu e mar.

Essa cena, prenhe de naturalidade e de horror, me levou a pensar que foi Deus quem mandou essa ave de rapina interceptar o voo do pássaro — que não era um pássaro qualquer, mas um melro falador. Talvez Deus tenha ficado temeroso de que a pequena ave, utilizando sua capacidade de articular palavras, se atrevesse a revelar ao mundo o que havia lá na linha distante, onde está guardado o segredo da origem e do fim dos tempos e da luz.

Se eu fosse Deus, teria feito o mesmo. Se eu fosse o melro falador, também teria feito o mesmo.

 




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