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14 de outubro de 2016

Faroeste

bangue2

Santa Helena nunca vira agitação igual. De lado a lado a novidade não saía das bocas: os americanos estavam na cidade para gravar um filme de faroeste, um autêntico bangue-bangue como os de antigamente, e a população inteira de novecentas pessoas tinha sido convidada para fazer figuração. Todos ganharam figurinos e adereços de época e se reuniram na praça, aguardando as ordens do diretor.

O prefeito e o juiz entraram abertamente na disputa pela estrela de xerife. Cada um usava a arma que tinha: o primeiro empurrou sua mãe para interpretar a avó de algum enforcado, e o segundo ofereceu a própria esposa à produção, a Isaura vai ficar ótima como a dona do bordel. O médico e o padre, profissionais na vida real, se prontificaram para proteger as meninas do saloon, e nisso eles tinham experiência comprovada.

Velhos rancores, ódios sublimados pelo tempo rapidamente vieram à luz, e na praça da cidade já era visível a criação espontânea de dois grupos distintos: os mocinhos e os bandidos. Quando se cruzavam pelas ruas, um cuspia na bota do outro com desdém e arrogância. Os homens pararam de fazer a barba e ninguém mais foi visto de chinelos Havaianas nos pés. Cavaleiros com as pernas arqueadas perambulavam pelos becos, dando de beber aos cavalos e mascando pedaços de tabaco. No bar do Cassiano a cerveja acabou, gerando protestos de todos os fregueses, inclusive os que jogavam a partida final do campeonato de dominó.

Para quem quisesse ouvir, seu Artur, dono da padaria, disse que o melhor cenário para o bordel era o salão de beleza da dona Giselda, nem precisa fazer adaptação, já tá prontinho, é só gravar a cena. Dona Giselda riu e rebateu: O seu Artur pode interpretar a mula do bandido, já sabe ficar de quatro. E pra fazer o ladrão pode chamar o farmacêutico, que ele sabe o papel de cor e salteado.

O diretor ordenou que todos fizessem silêncio. Um redemoinho levantou uma sacola de plástico, que deu voltas em toda a praça até cair nos pés do Cara de Fuinha, o temido pistoleiro que estava ali pra se vingar do Tesourada, o desafeto ladrão de mulheres alheias. Os dois homens, com sangue nos olhos, estão agora frente a frente, a mão pronta a poucos centímetros da arma presa à cintura, aguardando o grito de Ação! Trocam tiros e caem ao mesmo tempo. A mancha vermelha que se formou no peito dos dois era real.

Naquela tarde, a cidade e seus habitantes foram notícia nos principais jornais da televisão. Todos quiseram dar depoimento sobre o acontecido na praça. Falaram que os dois mortos se conheciam a vida inteira e pareciam ser bons vizinhos, ninguém nunca notou qualquer sinal de ressentimento entre eles. Lola Cristina, a dona da pensão, não quis participar das filmagens e assistiu à cena da janela de seu quarto, de camisola. Fechou a cortina e guardou a tesoura que o último hóspede tinha esquecido sobre a mesinha de cabeceira, ao lado da cama.

 




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