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18 de julho de 2019

Febre

Não houve intenção, foi puro acaso. Tudo começou com um ligeiro e acidental roçar de dedos nos seios dela, ainda em estado de crescimento. Depois disso, passaram semanas sem se olhar nos olhos, ela ajudando a mãe no serviço da casa, ele com o pai na lavoura. Na hora do jantar, quando todos se reuniam, a reza antes de comer era uma tortura para os dois, certos de estarem em pecado abominável, como o padre falou na missa. No aniversário de quinze anos dela, um dia feriado e santo, um abraço mais apertado e, dessa vez, sim, o olhar rendido de um para o outro, mostrou que não conseguiriam resistir. Por que isso? Que desconhecido e escuro destino os impelia na direção que não deviam ir? Largas noites e dias ensolarados em interminável e frenética febre — a isso estariam condenados?

Quando a barriga dela começou a crescer, o pai, enfurecido, gritou Vingança! Tirou o fuzil de cima do armário, chamou seu filho e entregou-lhe a arma. Você vai sangrar de morte quem prejudicou sua irmã. Faça o que deve, descendente de Serafim!

Ele montou no cavalo e foi embora do povoado, o fuzil carregado e pesando no ombro como maldição eterna. Em seus olhos não brilhava a sede de vingança, mas a tristeza imensa de saber que jamais, jamais regressaria e que nunca veria o rosto de seu filho.

 




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18 de julho de 2019 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/mbaggio/" title="Visualizar todas as postagens por Mario baggio" rel="author">Mario baggio Contos febre, filho, irmã, morte, vingança

               
              
            
                

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