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1 de dezembro de 2016

A festa dos mortos-vivos

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Diante da cara de surpresa dos convidados, que juravam ter lido sobre sua morte nos jornais — juravam, inclusive, ter assistido à cerimônia de cremação de seu corpo — o premiado escritor entra no salão e encara a audiência com soberba. Sem cumprimentar ninguém, nem mesmo o dono da casa, vai com passos firmes na direção do crítico literário que o acusou de plágio e se lança sobre ele, aperta sua cabeça entre as mãos, abre-a como se abre as duas partes de um abacate e come seu cérebro com a volúpia de quem saboreia um manjar. Urrando de dor e com o pouco de forças que lhe resta, o crítico esbofeteia o escritor, livra-se dele com um safanão, corre até onde está o diretor da Gazeta Independente e com os dentes arranca-lhe a mão que assinou sua carta de demissão. Mastiga-a com deleite, cuspindo para o lado os ossinhos dos dedos. O diretor, com a única mão de que dispõe, agarra e arranca os genitais do cineasta que lhe roubou a namorada, essa mesma senhorita que agora sente os dentes pontiagudos do deputado rasgando e cuspindo pedaços ensanguentados de seus seios e grita de prazer enquanto morde o pescoço do dono da casa, o elegante príncipe em trajes europeus que abriu sua casa para a festa em petit comité oferecida à elite artística da cidade.

O príncipe se atira sobre o cenógrafo, a cantora sobre a duquesa, o bailarino sobre a garota de programa que, num autêntico golpe do baú, tinha se casado com o príncipe, o roteirista de filmes B sobre o mordomo, este sobre o responsável pela segurança…

As bandejas com as comidas do bufê chegaram no exato momento em que os mortos-vivos saíam da sala aos empurrões, sedentos por novas vítimas. Sentados entre charcos de sangue e nacos de carne humana, os dez garçons contratados para a festa — dois professores em greve, três estudantes de jornalismo, um aspirante a ator e quatro bolsistas da universidade local, todos fazendo bico para ganhar uns trocados — degustam canapés de caviar, bolinhos de bacalhau, camarões empanados e aperitivos de champanhe. Comem cerimoniosamente, esperando o momento exato em que o fim do mundo descerá sobre a cabeça de todos.

 




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1 de dezembro de 2016 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/" title="Visualizar todas as postagens por " rel="author"> Contos elite, festa, mortos-vivos

               
              
            
                

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