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27 de outubro de 2016

A filha do Frankenstein

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Quando minha mãe ficou grávida de novo, meu pai me disse que, dali em diante, eu teria que ir sozinho à escola, pra que ela pudesse descansar. No começo, tive nojo dos vômitos dela, sempre na hora em que estávamos comendo, depois me acostumei. Ela vomitava numa toalha felpuda que logo era jogada na máquina de lavar. Depois os enjoos diminuíram conforme a barriga crescia. Passou a devorar tudo o que encontrava pela frente, até os meus salgadinhos. Por sorte meu pai sempre comprava mais, então não senti tanta falta. Minha mãe comia escondido dele, pra não levar bronca.

Com o passar dos meses fui perdendo minha mãe. Aquela pata que andava pela casa arrastando os chinelos, com as pernas inchadas e a barriga como se tivesse engolido a lua cheia, não era a minha mãe. Ela parecia estar em outro mundo e já não se importava mais comigo. Não fazia a minha vitamina de manhã nem o bifinho do almoço. Estava sempre nervosa e deixou de corrigir minha lição de casa. Eu tirava nota alta, mas ela não me dava parabéns nem beijo como antes. Meu pai comprava comida pronta na mercearia do seu Jaime, e eu tinha que comer o que ele trazia, mesmo querendo comer a comida da minha mãe.

Eu não gostei de ver minha mãe grávida. Outro dia ela perguntou se eu queria ter um irmãozinho ou irmãzinha, e eu disse que pouco me importava e que era melhor que nem nascesse. Ou que nascesse com cabeça grande como uma bola de capotão, assim eu ia chutar ela no campinho atrás de casa.

Uma noite, depois de comer sozinha uma lasanha inteira, minha mãe se levantou e viu que na cadeira tinha uma mancha de sangue. Meu pai correu com ela até o hospital e, quando voltaram, disseram que era uma irmãzinha e tinha nascido morta. Depois minha mãe foi pra cama descansar, e meu pai falou pra eu ficar quieto e não fazer barulho. Eu matutei bastante, mas ainda não sei se fiquei feliz ou não. Já tinha me acostumado com a ideia de dividir o colo de minha mãe com essa coisa que estava pra chegar. Mas agora não vinha ninguém, e tudo ia continuar como antes. Acho que foi melhor assim.

Comecei a imaginar como minha irmãzinha seria, mas no meu pensamento só apareceu a cara da filha do Frankenstein, que é a única menina morta que eu conheço. Se minha irmãzinha fosse assim, seria muito feia. Ainda bem que ela não nasceu.

 




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27 de outubro de 2016 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/" title="Visualizar todas as postagens por " rel="author"> Contos filha, grávida, irmãzinha, mãe

               
              
            
                

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