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5 de outubro de 2016

Filmes de mãos

sombras

A cada dia que passa entendo melhor as sombras. Na minha idade não é difícil compreender essas coisas escuras e pouco definidas.

Meu neto brinca com elas e diz que são sombras chinesas. Ainda ontem, na tela da parede da sala, fez subir no meu braço um jacaré com a boca aberta. Pouco depois era um coelho que pulava na minha cabeça. Para ele, as sombras são brinquedos e são divertidas. Para mim também foram, um dia, mas eu não as chamava de chinesas, eram filmes de mãos. Agora, para mim, as sombras têm outros nomes.

A sombra do pôr do sol sobre o muro me faz sentir pequeno quando espero o ônibus, na volta para casa. Tão grandes são o poente e sua sombra, e tão insignificantes somos eu e minha sombra! Às vezes, quando passo longos minutos ali esperando a condução, me invadem a nostalgia e a saudade de tempos outros e, não fosse eu um ancião e temente ao ridículo, de pronto começaria a brincar com a sombra do sol, mexendo os braços, as mãos e os dedos feito um boneco que perdeu as articulações. Se eu tivesse coragem para me comportar como um menino, ah!, eu seria uma sombra em forma de caracol e me arrastaria até o muro para, enfim, fundir-me com a do sol que aos poucos vai desaparecendo. Uma vez no muro, passaria bem depressa para o outro lado, onde os que já se foram estão lá me esperando com sua sombra horizontal estendida no chão.

 




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