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12 de janeiro de 2015

Filosofia no distrito policial

bebado

Diógenes abriu a porta da delegacia e entrou solenemente, tal qual se entra numa igreja. Parou na frente da mesa do delegado, ajeitou o paletó surrado, arrumou o cabelo com cuspe e disse, com a voz enrolada cheirando a tabaco e a cachaça:

– Estou aqui para me entregar porque acabo de assassinar um homem. Eu matei o Platão.

O delegado, depois de um minuto de silêncio, olhou a figura que mal conseguia se equilibrar à sua frente e perguntou com enfado:

– Legítima defesa?

O homem sorriu com ironia: “Isso é o senhor que vai ter que me dizer. O Platão quis me agredir com uma faca de açougueiro. Eu tinha que me defender, não tinha?”. O delegado, mais entediado ainda: “Há testemunhas? Alguém presenciou a ocorrência?”. “Um tal de Aristóteles passava por lá na hora. Ele viu tudo”. “E o corpo?”, quis saber o delegado. “Joguei de cima da ponte. Deve estar boiando no rio”, disse Diógenes, pontuando suas palavras com gestos atabalhoados, tentando a todo custo manter-se de pé.

O delegado chamou discretamente o policial de plantão e os dois foram para a sala ao lado, enquanto Diógenes continuava a falar sobre o crime, sem se dar conta de que estava sozinho. Quando os homens voltaram o delegado anunciou:

– O senhor está preso. Três anos e dois meses.

Dirigiu-se ao policial e fez sinal para que o levasse à cela. Diógenes se adiantou: “Pode deixar, meu camarada, que eu já conheço o caminho.”. Dorme desde então na cadeia, e o delegado está livre dele por uns dias. Há dois meses Diógenes garantira que tinha assassinado Sócrates e foi condenado a dez anos e um mês. É que o delegado, homem de filosofias, considerou que matar Sócrates tinha sido muito mais grave que matar Platão.

 




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