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8 de abril de 2016

Fim

lareiraFechei a janela quando a noite desceu, quando meus ossos puderam sentir, de pronto, que o frio já mordia o ar e que o inverno, agora sem dúvida, já podia ser chamado de inverno.

Esqueci por um momento a noite que descia e lhe ofereci a mão. Apertei forte os seus dedos, segurei-os com cuidado e delicadeza até que estivéssemos, os dois, sentados diante do fogo ainda tímido e de um presente já passado, já ancião e, portanto, sem expectativa de futuro.

Quis falar, tentei, ensaiei palavras, mas não pude: a garganta estava vazia, o som não encontrava sua forma, os lábios, inertes, a língua, morta. Vi que você também tentou, mas sua boca estava igualmente muda, e murcha, e trêmula. Éramos dois seres faltos de léxico e gramática, onde estão escondidos os verbos?

Nossos olhos, iluminados pelo fogo e úmidos de calor e lágrimas, lograram enfim se encontrar. E então eles falaram o que a boca não,

e disseram que tudo já estava dito,

que o futuro seria silêncio,

e o silêncio, nosso esquecimento.

Nossa sepultura.

 




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