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4 de junho de 2018

Foda-se

— Fogo! — minha mãe gritou desesperada.

Se alguém como eu dorme no quarto dos fundos da casa, lá colocado para não atrapalhar a rotina dos demais habitantes, que têm muito a fazer durante o dia todo, tanto faz, dá igual. Vejo que a fumaça começa a entrar por debaixo da porta e Lady Gaga ri. Lady Gaga tá num pôster na parede, não que eu tivesse colocado ela lá, porque eu detesto ela, mas disseram que todo rapazinho da minha idade, assim meio veadinho, assim meio bichinha, gostava dela. Agora ela tá ficando enrugada, é o fogo chegando perto dela, eu nem me importo, que essa desgraçada queime no inferno. Os livros da estante já tão virando cinza, o tapete ao pé da cama já era, e eu nunca pisei nele, foda-se. A cadeira da escrivaninha já tá se desfazendo, e eu não sentei nela nem uma vez, ah, que se foda também. O chão abriu um buraco, e eu nem cheguei a sentir aquele friozinho de pé descalço na madeira, ah, que se… Uma chama pegou na ponta do lençol e logo ele vai virar carvão. Daqui a pouco sou eu. O meu avô, que dividia esse quarto miserável comigo, já foi e não deu nem um grito, tava dormindo. Agora vou eu, vou deixar pra trás essa paralisia e minhas pernas inúteis, vou catar a mão do meu avô e voar com ele pra outro lugar que não seja esse quarto dos fundos, longe da casa, nós dois excluídos, ele por velhice e falta de memória, eu por inutilidade e estorvo. Foda-se.

 




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4 de junho de 2018 < a href="http://homemdepalavra.com.br/author/mbaggio/" title="Visualizar todas as postagens por Mario baggio" rel="author">Mario baggio Contos foda-se, fogo, quarto dos fundos

               
              
            
                

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